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Crise energética após guerra na Ucrânia deixou indústria europeia em desvantagem

Especialistas consideram que aumento dos custos da energia na Europa também penalizou várias economias asiáticas.

14 de março de 2026 às 10:30

O aumento dos custos da energia na Europa após a crise desencadeada pela guerra na Ucrânia, em 2022, penalizou a competitividade da indústria do continente face aos Estados Unidos e a várias economias asiáticas, segundo especialistas.

O economista João Borges de Assunção explicou à Lusa que "o diferencial de custos energéticos pós-2022, com gás mais caro e volátil, penalizou a indústria europeia face aos EUA e a vários países asiáticos".

O professor na Universidade Católica Portuguesa acrescentou que o modelo energético europeu continua vulnerável a choques externos, sobretudo em economias importadoras, como a europeia.

"A melhor defesa para este tipo de choques sistémicos na economia global é uma economia flexível, dinâmica, autónoma do Estado e diversificada", defendeu.

Também Ricardo Cabral considera que as decisões tomadas após a invasão da Ucrânia agravaram a competitividade da economia europeia.

Segundo o professor do ISEG --- Instituto Superior de Economia e Gestão, "ao sancionar gás natural e petróleo russos é evidente que estamos a prejudicar a indústria e a atividade económica da União Europeia".

"Embora tradicionalmente os EUA importem pouco petróleo da Rússia (precisamente porque não são geograficamente próximos da Rússia), continuaram sempre, desde 2022, a importar urânio desse país para as suas centrais nucleares", lembrou.

E acrescentou: "Aliás, os dirigentes da União Europeia estão agora em tal pânico que já falam em revogar as sanções à Rússia e em voltar a importar gás natural e petróleo russos. E os EUA já levantaram as sanções às importações de combustível da Rússia".

Para o economista, estas medidas contribuíram para aumentar os preços da energia e a inflação no continente entre 2022 e 2025.

A crise energética também teve efeitos na transição energética europeia.

De acordo com Ugne Keliauskaite, analista do Bruegel, a União Europeia aumentou a quota de energias renováveis na produção de eletricidade de 37% em 2021 para 48% em 2025.

No entanto, a responsável do 'think tank', ou centro independente de investigação e análise de políticas públicas, alerta que os avanços na redução da dependência de combustíveis fósseis continuam limitados, sublinhando que "o progresso na redução da procura de combustíveis fósseis continua a ser insuficiente".

A investigadora acrescenta que a dependência de combustíveis fósseis mantém a Europa vulnerável a novos aumentos de preços quando os mercados globais de energia se tornam mais restritos.

"Nestas condições, quaisquer choques adicionais podem agravar a situação, como fenómenos meteorológicos extremos que afetem infraestruturas energéticas ou um inverno excecionalmente frio que aumente a procura", assinalou.

Já João Borges de Assunção diz que a crise acelerou "politicamente" a transição energética na Europa "com metas e reformas de mercado", mas "tornou-a mais cara e frágil".

"A União Europeia precisa de rever as suas políticas energéticas e ambientais", o que, na sua visão, "só será possível com um governo alemão forte e com capacidade de liderança nesta área. Isso ainda não aconteceu".

Para Ricardo Cabral, a "guerra Rússia-Ucrânia veio por a nu que a transição energética da UE tinha outros objetivos políticos que não o combate ao aquecimento global".

"Se tivesse algum dia sido prioritário, nunca se teria sancionado o gás natural russo" e "também se teriam encetado negociações com a Ucrânia e com a Rússia tendo em vista um acordo de paz e ter-se-ia apelado aos EUA e a Israel para não iniciar a guerra com o Irão, em vez de apoiar explicitamente ou tacitamente a continuação dos dois conflitos bélicos", defendeu.

A escalada que tem sido registada nos preços da energia reflete o agravamento da situação no Médio Oriente após o ataque de Israel e dos Estados Unidos ao Irão, a 28 de fevereiro, e o encerramento do estreito de Ormuz, por onde passa cerca de 20% da produção global de petróleo e quase 20% do gás natural liquefeito (GNL).

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