23.ª edição do Campeonato do Mundo realiza-se de 11 de junho a 19 de julho e integra pela primeira vez 48 seleções, incluindo Portugal, num total de 104 jogos.
Uma gestão otimizada da fadiga e a prevenção de lesões vão ser fundamentais para o sucesso no Mundial 2026 de futebol, que está repleto de desafios logísticos, geográficos e climatéricos, perspetiva Henrique Jones, ex-médico da seleção portuguesa.
"Além das competências técnicas dos atletas e do 'staff', há dois aspetos super importantes para um campeão do mundo: a gestão da fadiga entre jogos e a prevenção de lesões. Muitas vezes, as implicações do treino e da recuperação levam a que não haja programas de prevenção de lesões que possam ser aplicados de forma intermédia", notou à agência Lusa o antigo responsável pelo departamento clínico da equipa lusa, entre 2000 e 2014.
A 23.ª edição do Campeonato do Mundo realiza-se de 11 de junho a 19 de julho e integra pela primeira vez 48 seleções, incluindo Portugal, num total de 104 jogos, sob inédita organização tripartida entre Estados Unidos, México e Canadá.
Henrique Jones lembra que muitos dos 1.248 convocados chegarão à fase final com, pelo menos, 50 encontros disputados nas diversas competições esta época entre clubes e seleções, cenário que, no caso de Portugal, abrange Diogo Costa, Matheus Nunes, Gonçalo Inácio, Rúben Neves, Vitinha, Bernardo Silva, Francisco Trincão, Pedro Neto, João Félix e Gonçalo Ramos.
"O excesso competitivo é diretamente proporcional ao risco de lesão para alguns atletas. Isto não tem a ver só com o número de jogos, mas com o intervalo de dias e é muito específico em cada futebolista. Quando dizemos que são necessárias, no mínimo, 72 horas para recuperar, isto não é verdade. Há quem recupere em 48 horas, mas outros fazem-no em cinco dias", avaliou.
Problemas musculares graves e roturas do ligamento cruzado anterior dos joelhos e dos tendões de Aquiles afastaram nos últimos meses algumas figuras do Mundial2026, numa altura em que o futebol "é muito mais rápido" e os investimentos feitos por clubes e seleções fazem crescer a exigência.
"Os jogadores que conseguem alguma longevidade são os que têm higiene de vida e fazem um trabalho nos bastidores a nível de recuperação da fadiga, reforço muscular e treino neuromuscular. Não é por acaso que há uns anos os clubes de topo começaram a pensar em ter dois e, às vezes, três opções para cada posição. Há duas finalidades: haver sempre alguém em melhores condições do que o colega do lado e prevenir lesões, no sentido de não arriscar a pôr um atleta que não está a 100%", explicou.
Presente em três Europeus e quatro Mundiais com a seleção principal de Portugal, Henrique Jones acredita que a comitiva lusa terá cuidados acrescidos com viagens, fusos horários, descanso e mudanças de alojamento, além do contexto geográfico, social e climatérico dos locais onde vai treinar e jogar, visando "evitar a todo o custo a exaustão psicológica dos atletas".
"Há um contexto que tem de ser muito bem preparado. Neste momento, e ao contrário do que acontecia há uns anos, as seleções têm ao seu dispor ferramentas materiais e humanas que permitem ajudá-las nestes aspetos relevantes", sublinhou o ortopedista especializado em medicina desportiva.
Para proteger o bem-estar dos futebolistas, a FIFA aprovou a introdução de uma pausa de hidratação de três minutos a meio de cada parte de 45 minutos em todos os jogos, medida inédita na história do principal torneio internacional de seleções e independente da temperatura ou da humidade.
As paragens também vão fomentar maior comunicação entre jogadores e equipa técnica e potenciar novos espaços publicitários nas transmissões televisivas, cabendo ao árbitro colmatar esses minutos nos períodos de compensação.
"Um dos fatores mais importantes no aparecimento de lesões, sobretudo musculares, é a sub-hidratação. Por outro lado, uma paragem pode ter algum impacto negativo na performance do atleta, pois ele arrefece e volta a aquecer. Continuo a pensar que esta regra é importante e não pode ser posta em causa", considerou, sem esquecer que a tendência ofensiva de uma seleção que está a atacar e precisa de marcar poderá ser quebrada.
Henrique Jones vê como uma perturbação para os jogadores e a própria competição a possibilidade de as partidas serem atrasadas ou temporariamente suspensas antes ou depois do seu início, tal como sucedeu no Mundial de clubes, em 2025, face às regulamentações dos Estados Unidos perante o risco de tempestades nas proximidades de eventos desportivos.
Caso sejam detetados relâmpagos ou sinais de descarga elétrica num raio de oito milhas (12,9 quilómetros), qualquer partida tem de ser interrompida, com o estádio a ser evacuado, enquanto os atletas voltam aos balneários.
Terminada uma contagem regressiva de meia hora, as equipas são autorizadas a regressar ao relvado e a fazer um breve período de aquecimento, antes de reiniciarem o jogo - uma interrupção por mais de 45 a 60 minutos pode levar a outro desfecho -, algo evitado em estádios com teto retrátil.
"Atuar num estádio fechado com uma temperatura a rondar os 21 graus é bem mais confortável para a performance do atleta do que competir ao ar livre com 30 graus. Não vejo que isso seja um problema", julgou Henrique Jones, acerca dos diferentes contextos que Portugal enfrentará nos três embates do Grupo K da primeira fase, frente à regressada República Democrática do Congo e ao estreante Uzbequistão, ambos debaixo de teto retrátil em Houston, e à vice-campeã sul-americana Colômbia, em Miami.
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