"Temos fé e esperança", disse Yelitza Noriega.
Em La Guaira, no meio de queixas da falta de ajuda estatal, persiste a esperança de resgatar pessoas, com a população a usar inclusive as mãos para remover os escombros de prédios que ruíram durante os recentes sismos.
“Temos fé e esperança [de que continuam vivos], mas partimos do princípio de que já não estão neste mundo. De qualquer forma queremos recuperá-los e, por isso, estamos aqui todos os dias à procura da nossa família”, disse Yelitza Noriega à Agência Lusa.
Há mais de uma semana que esta venezuelana passa a maior parte do dia remexendo nos escombros do edifício “Mi Club Playa Grande”.
“Vim buscar a minha família e dar por concluída esta situação. E, depois, pensaremos no amanhã. Temos de viver o dia de hoje: Este terramoto ensinou-nos isso, [a pensar] apenas no dia de hoje”, disse.
Explicou ainda que nos restos do prédio estão “cinco pessoas soterradas”, quatro delas da sua família, duas tias, um primo e o marido de uma das tias.
“Estamos aqui desde quinta-feira, a trabalhar manualmente porque não temos maquinaria e não há forma de chegar aos apartamentos, pois as lajes são demasiado grandes e pesadas. Precisamos de maquinaria pesada para os conseguir retirar de lá”, desabafou.
Explicou que os irmãos e filhos dos quatro parentes soterrados estão emigrados e que dessa família é a única que está viva.
“Nenhuma ajuda. Alguns voluntários vêm aqui escavam, metem-se [nos escombros] e tentam ajudar. Ali está o meu marido e um voluntário que vem ajudar, mas da parte do Estado ou de maquinaria de empresas privadas, nada, nada, nada, nada, tudo é feito com as mãos”, disse.
E insistiu: “não temos ferramentas para remover esses pavimentos tão grossos, por isso não conseguimos”.
“No sábado conseguimos salvar o marido da minha tia. Ele foi o único, e tiveram de escavar pelo ‘penthouse’ até chegar ao quarto andar. Tiveram que ir pelo telhado, porque não havia maneira de aceder pelos lados, devido à espessura das lajes. Demoraram nove horas para romper o teto e resgatá-lo”, disse, precisando que o edifício tinha quatro pisos, três apartamentos por cada um, mais um “penthouse”.
Yelitza Noriega tem falado com muitas pessoas a pedir ajuda, mas a resposta é sempre a mesma: “dizem-nos que não têm maquinarias. É essa a resposta”.
“Os centros de recolha disponibilizam-nos ferramentas, picaretas e pás, mas é só isso, fazemos tudo com as mãos, nada mais”, disse, sublinhando que “já passaram nove dias”.
“Mas a fé é a última coisa que se perde e, até os ver, não a perco. Mas, claro, também é preciso estar ciente de que já passaram demasiados dias”, disse Yelitza que jamais esquecerá que estava no seu quarto com o marido quando o telefone deu o alarme de que havia um sismo.
“A casa começou a balançar em ziguezague. Vi as paredes a balançarem em ziguezague e, quando tentava sair do quarto, a situação mudou, era como uma onda que me atirou para o chão e não havia maneira de me levantar, era como aquela sensação de que uma onda [do mar] te empurra e levanta-te. Não conseguíamos sair do quarto. Graças a Deus, a minha casa não sofreu grandes danos, apenas algumas fissuras”, disse.
Explicou ainda que só pensou na sua filha, Patrícia, que vive em Caracas, precisando que a sua descendente “fisicamente está bem, mas emocionalmente ainda a recuperar-se”.
Por outro lado, o voluntário Ernesto Perdón viajou desde El Zúlia (830 quilómetros a oeste da capital) até Playa Grande “para apoiar os irmãos de La Guaira com a maquinaria”, à espera que alguém seja resgatado com vida e pedindo a Deus que ajude, que dê muita força aos venezuelanos.
Outro voluntário, Gilberto Valessilo, também de Zúlia, descreve o que já viu como “uma catástrofe de grande magnitude” que deixou muitos afetados.
“Temos o apoio de brigadas do Irão, do México e da Espanha. Os iranianos introduziram máquinas especiais que indicam que há pessoas vivas. Estão a escavar até à cave, até dois andares abaixo do nível do solo, onde se presume que as estruturas não estão tão danificadas, onde se presume que estejam entre 25 e 35 pessoas com vida”, disse.
Outro voluntário, José Gregório Franco Nieves, viajou quilómetros até às residências Playa Grande, onde decorrem as buscas com a ajuda de chineses.
“Eu tinha família aqui e temos esperança que continuem vivos. A China nos está a ajudar com detetores de sinais de vida. Há aproximadamente 40 pessoas e 4 delas estariam vivas, entre eles um menino”, disse.
Explicou ainda que entre os sobreviventes presos nos escombros estaria um militar que se comunicou pela rádio com os companheiros.
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