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Nuno Teotónio Pereira (1922-2016)

Arquiteto morreu aos 93 anos.

20 de janeiro de 2016 às 14:00

O arquiteto Nuno Teotónio Pereira, de 93 anos, uma das mais destacadas figuras do urbanismo e da habitação em Portugal, morreu esta quarta-feira, em Lisboa, disse à agência Lusa fonte da Ordem dos Arquitetos.

De acordo com a mesma fonte, Nuno Teotónio Pereira "faleceu em casa, rodeado pela família", cerca do meio-dia desta quarta-feira.

Nascido em Lisboa, em 1922, formou-se em arquitetura pela Escola de Belas Artes de Lisboa, foi autor e coautor de dezenas de projetos e também um histórico defensor de direitos cívicos e políticos durante o regime salazarista.

Em abril de 2015, Nuno Teotónio Pereira foi distinguido com o Prémio Universidade de Lisboa 2015, pelo exercício "brilhante" na área da arquitetura e como "figura ética".

São da sua autoria - ou em coautoria com arquitetos como Nuno Portas, Bartolomeu Costa Cabral e João Braula Reis - o Bloco das Águas Livres, classificado em 2012 como monumento de interesse público, a Torre de Habitação Social nos Olivais Norte, o chamado Edifício "Franjinhas" e a Igreja do Sagrado Coração de Jesus, projetos realizados em Lisboa, distinguidos com Prémios Valmor.

Teotónio Pereira foi um dos arquitetos pioneiros na área da habitação social, tendo projetado não só para a capital portuguesa, mas também para Braga, Castelo Branco, Póvoa de Santa Iria, Barcelos e Vila Nova de Famalicão, nos anos de 1950 a 1970. Entre 1948 a 1972, foi consultor de Habitações Económicas na Federação das Caixas de Previdência, tendo realizado o primeiro concurso para habitações de renda controlada.

Foi galardoado com o 2.º Prémio Nacional de Arquitetura da Fundação Calouste Gulbenkian (1961), pelo Edifício das Águas Livres, e Prémios Valmor para a Torre de Habitação nos Olivais Norte (1967), Edifício Franjinhas (1971) e Igreja do Sagrado Coração de Jesus (1975). Era membro honorário da Ordem dos Arquitetos desde 2004 e Doutor Honoris Causa pela Faculdade de Arquitetura da Universidade do Porto (2003) e pela Faculdade de Arquitetura da Universidade de Lisboa (2005).

Funeral na sexta-feira

O funeral do arquiteto Nuno Teotónio Pereira, de 93 anos, realiza-se na sexta-feira, às 13h30, da Igreja do Sagrado Coração de Jesus, em Lisboa, para o Cemitério do Lumiar, disse à agência Lusa fonte da família.

De acordo com a mesma fonte, o corpo do arquiteto estará em câmara ardente a partir das 17h00 de quinta-feira, no salão paroquial da Igreja do Sagrado Coração de Jesus, em Lisboa.

A Igreja do Sagrado Coração de Jesus foi projetada por Nuno Teotónio Pereira, com o arquiteto Nuno Portas, e foi distinguida com o Prémio Valmor em 1975.

Ordem dos arquitetos sublinha legado

O presidente da Ordem dos Arquitetos, João Santa-Rita, sublinhou, em declarações à agência Lusa, o legado deixado por Nuno Teotónio Pereira "enquanto arquiteto, cidadão, lisboeta e amigo".

Uma das mais destacadas figuras da arquitetura, habitação e urbanismo em Portugal, Nuno Teotónio Pereira, morreu em casa, rodeado pela família, cerca do meio-dia.

"Foi mais do que um arquiteto, foi um grande homem. Deixa-nos uma obra enquanto arquiteto, enquanto cidadão, lisboeta e amigo. São coisas que vão muito além daquilo que é a produção enquanto artista", acrescentou João Santa-Rita.

Figura incontornável da arquitetura

O Partido Socialista manifestou consternação pela morte do arquiteto Nuno Teotónio Pereira, considerando-o uma figura incontornável da história da moderna arquitetura portuguesa.

"Para além de ser uma figura incontornável da história da moderna arquitetura portuguesa, Nuno Teotónio Pereira foi ao longo de toda a sua vida um notável exemplo de cidadania na defesa dos valores da Liberdade e da Democracia, antes e depois do 25 de Abril", refere o PS numa nota enviada à agência Lusa em que também apresenta as condolências à família e amigos do arquiteto.

João Soares destaca a figura inovadora

O arquiteto Nuno Teotónio Pereira foi "uma figura maior e inovadora da arquitetura portuguesa e um cidadão especialmente corajoso que sempre pugnou [...] por uma sociedade mais justa", afirma o ministro da Cultura.

João Soares, na mensagem de pesar enviada à família, expressa "o seu profundo sentimento de perda pelo falecimento do arquiteto Nuno Teotónio Pereira, uma figura maior e inovadora da arquitetura portuguesa e um cidadão especialmente corajoso que sempre pugnou pelas liberdades públicas e por uma sociedade mais justa".

O ministro afirma que "acompanhou direta e pessoalmente a evolução do precário estado de saúde do arquiteto Nuno Teotónio Pereira, nas últimas semanas, e disponibilizou os seus préstimos junto da sua família".

Cavaco recorda um dos maiores arquitetos portugueses do século XX

O Presidente da República, Cavaco Silva, recordou Nuno Teotónio Pereira como "um dos maiores arquitetos portugueses do século XX" e um "militante empenhado na defesa da liberdade, antes e depois do 25 de Abril de 1974".

"Ao longo de uma carreira notável, várias vezes galardoado com os mais prestigiados prémios, Nuno Teotónio Pereira foi um dos maiores arquitetos portugueses do século XX, autor de edifícios emblemáticos que nos fascinam pela rigorosa beleza do seu traço", destaca o chefe de Estado, Aníbal Cavaco Silva, numa mensagem de condolências à família divulgada no site da Presidência da República.

Cavaco Silva recordou ainda Nuno Teotónio Pereira como "um militante empenhado na defesa da liberdade, antes e depois do 25 de Abril de 1974".

"Destacou-se como católico oposicionista e, mais tarde, como um defensor da independência dos povos africanos. Lutou toda a vida, com uma fé inabalável, contra todas as formas de opressão", refere o chefe de Estado, acrescentando que o arquiteto "deu o melhor de si ao seu país e à causa dos direitos humanos em todo o mundo".

Pioneiro que pensou habitação de porta aberta

"Deu um contributo fundamental, foi um pioneiro no trabalho em equipa, mesmo dentro do seu atelier, que era uma escola de inovação", afirmou Roberto Cremascoli, um dos curadores da representação de Portugal na Bienal de Veneza.

"Homem completo"

O arquiteto Nuno Teotónio Pereira em Lisboa, era um "homem completo" que defendeu uma arquitetura alinhada com a necessidade de modernizar Portugal, combatendo desequilíbrios sociais, disse o diretor da Faculdade de Arquitetura da Universidade do Porto (FAUP).

Em entrevista telefónica à agência Lusa sobre a morte do arquiteto Nuno Teotónio Pereira aos 93 anos, Carlos Guimarães recordou a "personagem que marcou a história da arquitetura portuguesa, particularmente da segunda metade do século XX em diante", e lembrou o "homem que nunca dissociou o seu gosto e a sua atenção pela arquitetura das questões de natureza social e humana, política do seu tempo".

"Ele tinha acabado de se licenciar como arquiteto e participou num congresso histórico da arquitetura em Portugal, o Congresso de 1949, onde, ainda jovem, interveio com uma proposta claramente alinhada com a necessidade de o país ver as questões da arquitetura exatamente embrenhadas e intricadas com a necessidade de modernizar o país, valorizando as questões dos desequilíbrios sociais, encontrando respostas para essas carências", relembrou o diretor da FAUP.

Homem com percurso extraordinário

O arquiteto Nuno Teotónio Pereira era "um homem bom" com um "percurso de vida extraordinário", disse a Faculdade de Arquitetura da Universidade de Lisboa (FAUL).

Nas palavras do arquiteto Miguel Baptista-Bastos, docente de arquitetura, citado pela instituição em comunicado, "hoje morreu um homem bom", e "quando isto acontece, a luz desse dia não irradia e tudo surge mais ensombrado".

"Todos os espaços projetados [por Nuno Teotónio Pereira] continuam a melhorar o espaço em que vivemos. Foi um dos mentores da Faculdade de Arquitetura da Universidade de Lisboa/Escola de Lisboa, tal como a entendemos hoje: socialmente empenhada e com uma generosidade sem busca de reconhecimento", prossegue o comunicado da FAUL, com as palavras de Miguel Baptista-Bastos, "um dos últimos a entrevistar Nuno Teotónio Pereira".

"A sua ausência empobrece Portugal"

O arquiteto Alexandre Alves Costa lembrou esta quarta-feira Nuno Teotónio Pereira como "personagem central da cultura contemporânea" em Portugal, cuja ausência empobrece o país.

"A sua ausência empobrece Portugal", afirmou o arquiteto Alves Costa, que admitiu ter ficado "muito abalado com este desaparecimento".

Alexandre Alves Costa recordou como Teotónio Pereira "teve um papel importantíssimo na história da arquitetura contemporânea", notabilizando-se por, juntamente com Fernando Távora, estar na vanguarda da revisão do movimento moderno da arquitetura, "por uma linguagem da arquitetura mais próxima dos utentes".

Um arquiteto admirável e um anticolonialista

De acordo com o líder do executivo, "o arquiteto Teotónio Pereira conhecia a cidade de Lisboa como poucos e pensou e projetou a cidade de Lisboa como poucos".

"A sua morte deixa um grande vazio na arquitetura e na cultura portuguesa. Foi com grande pena que recebi essa notícia", disse.

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