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MICRONOVELA

Pandora O poder não se mostra. Usa-se.

Arábia Saudita de luto

Fahd bin Abdul Aziz Al-Saud, Rei da Arábia Saudita, morreu esta segunda-feira no Hospital Rei Faisal, em Riade, capital saudita. O chefe da Casa de Saud estava hospitalizado desde 27 de Maio e não exercia poder executivo desde que em 1995 sofreu uma trombose. Tinha 84 anos de idade.

01 de agosto de 2005 às 08:02

Fahd bin Abdul Aziz Al-Saud era filho de Abdulaziz bin Abdulrahman Al-Saud, fundador e primeiro rei da Arábia Saudita. O jovem príncipe tinha 9 anos de idade quando o seu pai fundou, em 1932, o reino que é actualmente o maior exportador de petróleo do Mundo. Foi o resultado de uma demanda iniciada no século XVIII, pelo fundador da Casa de Saud, Muhammad bin Saud, que então se juntou a um austero reformista islâmico, Muhammad bin Abd al-Wahhab, forjando uma aliança militar e de cariz religioso pelo controlo da Arábia Central.

Os Saud tinham origem na confederação tribal Anizah, em Najd (Centro da Península Arábica), e a sua aliança com Wahhab deu origem a dois séculos de guerra pelo controlo da região. A Casa de Saud consolidou em 1932 o seu domínio sobre o território da actual Arábia Saudita e pôs em prática um sistema de governo do género feudal, uma monarquia absoluta envolta numa corrente muito própria - e rígida - do Islão, o Wahhabismo (que não deve ser confundido com o movimento Muwahhidun, afecto à monarquia marroquina), ou Salafismo. Os praticantes desta corrente do Islão consideram-se os seguidores directos do profeta Maomé e têm no Corão a sua única lei. São, talvez, os muçulmanos mais ortodoxos.

O reino da Arábia Saudita, assim fundado sobre uma ancestral e tribal ansia de controlo sobre a Península Arábica e tendo na prática ortodoxa de uma corrente do Islão o seu mais forte aliado, evoluiu sobre o grandioso poder que lhe foi conferido pelo controlo das maiores reservas de petróleo do Mundo.

O jovem príncipe Fahd estudou disciplinas gerais em Riade e aprofundou o seu conhecimento sobre o Islão numa escola de Wahhabismo em Meca. Fez a sua primeira visita de Estado em 1945, a Nova Iorque, assistindo à sessão de abertura da Assembleia Geral das Nações Unidas. Fahd não se formou nas agruras da luta do poder mas foi sabiamente orientado pelo seu pai no sentido de alargar os seus horizontes do conhecimento do Mundo antes de herdar o trono. Em 1953, aos 30 anos de idade, foi nomeado ministro da Educação e nesse mesmo ano representou a Arábia Saudita na Coroação de Isabel II, em Londres. Seis anos depois representou o seu país numa reunião da Liga Árabe.

Em 1962, o príncipe Fahd 'subiu' a ministro do Interior. Cinco anos depois foi promovido a segundo primeiro-ministro adjunto. Estava preparado mas ainda não era a sua hora. Em 1964 subiu o trono o seu irmão, rei Faisal, um homem ainda formado nos rigores da guerra. Faisal foi assassinado por um sobrinho em 1975 e Khalid bin Abdul Aziz (rei Khalid) assumiu o trono, depois de o seu irmão mais velho, Muhammad bin Abdul Aziz, ter abdicado de um posto na sucessão.

Fahd passou a ser príncipe herdeiro. A sua hora chegou em 1982, quando sucedeu a Khalid no trono saudita. Impôs um regime de respeito absoluto pelo islamismo wahhabita e aproximou-se dos EUA. Nos últimos anos de 'lucidez' combateu duramente a emergência do terrorismo em solo saudita. Em 1995 sofreu um acidente vascular cerebral e abandonou os assuntos de Estado. O seu meio-irmão, príncipe herdeiro Abdullah, assumiu desde então a governação do país. Com a morte de Fahd sobe ao trono o agora rei Abdullah. O actual ministro saudita da Defesa, príncipe Sultan, é o próximo na linha de sucessão.

Esta manhã, a notícia da morte do rei Fahd começou a 'correr o Mundo' devido a uma informação fornecida por um diplomata ocidental acreditado em Riade. Pouco depois a emissão da televisão estatal saudita era interrompida por leituras do Corão. Por essa altura já Abdullah assumia o trono e os mercados mundiais de petróleo reagiam em alta à notícia, com os preços a subirem acima dos 61 dólares por barril.

O comunicado oficial foi lido, confirmando o óbito com palavras simples. Mas foi preciso que uma fonte governamental 'deixasse escapar' que o novo rei iria seguir a mesma política petrolífera, para estabilizar o preço do petróleo. Em suspenso fica apenas a reunião da Liga Árabe agendada para depois de amanhã. Poderá ser adiada, caso Riade assim o peça.

JOGO, BEBIDA E MULHERES

Para muitos, a imagem mais memorável do rei Fahd continua a ser aquela que correu mundo no final da década de 60: o jovem príncipe saudita a sair de um casino na Riviera Francesa, de madrugada, com uma jovem e bonita actriz pendurada em cada braço. O jogo, as mulheres e a bebida eram na altura os seus passatempos favoritos e são muitas as histórias que se contam à socapa em Riade sobre o seu passado boémio.

São célebres as suas noitadas nas boites de Beirute e os seus inúmeros ‘affaires’ com dançarinas da dança do ventre. Diz-se que, quando era novo, chegou a pagar cem mil dólares por ano à esposa de um empresário libanês para estar sempre à sua disposição. Apesar de ter assumido um comportamento mais responsável depois de subir ao trono, o gosto pela vida luxuosa manteve-se, ou não fosse ele um dos homens mais ricos do mundo.

Mesmo depois de sofrer a embolia que o atirou para uma cadeira de rodas, em 1995, continuou a divertir-se à grande, como em 1998, quando passou três meses de férias na Suíça, acompanhado por um séquito de 800 pessoas. Foram muitos os hoteleiros que encheram os bolsos nesses três meses de luxo e diversão, em que a conta ascendeu aos 40 milhões de euros.

De Genebra, Fahd e o seu séquito seguiram para Marbelha, no sul de Espanha, onde a festa prosseguiu. O monarca saudita era, aliás, presença habitual na cidade, e de cada vez que anunciava a sua vinda juntavam-se centenas de pessoas junto ao seu palácio a pedir emprego, à cata das generosas gorjetas que não paravam de saltar da carteira do milionário saudita.

Mais conservador e menos pró-ocidental que o irmão, o novo monarca saudita Abdullah Bin Abdul-Aziz, de 80 anos, era quem, de facto, comandava os destinos do país desde que o rei Fahd sofreu uma embolia cerebral incapacitante, em 1995.

Um dos 44 filhos do rei Abdul Aziz al-Saud, não faz parte, no entanto, do poderoso grupo dos ‘Sete de Sudairi’ - os sete filhos que Abdul Aziz teve com a sua esposa predilecta, Hassa al-Sudairi, mãe de Fahd. Em termos religiosos, é considerada mais devoto que o seu meio-irmão, e não se lhe conhecem as extravagâncias que tornaram Fahd famoso na sua juventude.

O primeiro cargo de destaque que ocupou foi o de Comandante da Guarda Nacional, para o qual foi nomeado em 1962, tendo sido ele o grande responsável pelo reequipamento e desenvolvimento das Forças Armadas sauditas. Politicamente mais conservador que o irmão, foi uma das vozes mais críticas contra o envio das tropas norte-americanas para o país, em 1990.

É também reconhecido como um grande defensor da união dos países árabes, e tem desempenhado papel de destaque na mediação de conflitos regionais.

PETRÓLEO ATINGE 62,3 DÓLARES

O preço do petróleo fixou ontem um novo máximo histórico, nos 62,3 dólares, com os investidores receosos de que a morte do rei saudita traga instabilidade aos mercados internacionais.

Em Londres, o barril de Brent subiu 2,7 por cento, para 60,96 dólares, o valor mais elevado desde 1988, ano em que este contrato foi introduzido naquele mercado. Em Nova Iorque, o crude subia também 2,7 por cento, para 62,2 dólares, tendo chegado a negociar nos 62,3 dólares, o máximo desde o início da negociação do contrato, em 1983.

Apesar de o sucessor do rei Fahd ter já sido anunciado (o meio-irmão Abdullah bin Abdulaziz al-Saud), os mercados ficaram preocupados com esta morte mas fonte diplomática saudita garantiu que a Arábia Saudita irá prosseguir a mesma política dos últimos anos ao nível do petróleo.

'ERA ITELIGENTE E BEM INFORMADO'

Em Portugal, país sem relações muito próximas com a Arábia Saudita, muito pouca gente se pode gabar de ter conhecido de perto o rei Fahd. O empresário Patrick Monteiro de Barros é um dos poucos com esse direito. “Estive com ele duas vezes, uma em 1984 e outra em 1989, salvo erro”, lembra o empresário, em conversa com o CM.

Administrador e detentor de uma grande parcela na petrolífera norte-americana Tosco, Monteiro de Barros teve por força dos seus negócios a oportunidade de privar com o rei Fahd, ou não fosse o petróleo a grande riqueza daquele país do Médio Oriente. “Tive a honra de lhe ter sido apresentado e a ideia com que fiquei foi a de que se tratava de um homem extremamente inteligente e muito bem informado”.

Para Monteiro de Barros, o monarca saudita era dono de “uma grande perspicácia, que se notava no olhar e na maneira como formulava as perguntas e apresentava os problemas”. Na altura em que o empresário português se encontrou com Fahd, estavam na mesa importantes ‘dossiers’ de negociação de petróleo. “Os nossos encontros foram breves entrevistas, sobre ‘dossiers’ que estava a tratar com o Ministério dos Petróleos e que tinham de ser apresentados ao Conselho Real”. Monteiro de Barros ficou “impressionado” com o rei.

'GRANDES DESAFIOS INTERNOS' (Miguel Monjardino, prof. Universidade Católica)

Correio da Manhã – O que vai mudar com a morte do rei Fahd?

Miguel Monjardino – Penso que, a curto prazo, não vai mudar nada, ou vai mudar muito pouco. O rei Fahd já tinha tido uma trombose em 1995 e foi o príncipe Abdullah quem governou o país nos últimos anos. Agora, tendo em conta a idade do príncipe Abdullah, penso que estamos claramente numa fase de transição. Penso também que o novo poder saudita enfrenta grandes desafios internos.

– A Arábia Saudita é um dos países onde a corrente wahabista do Islão é mais forte. Pode haver um reforço do fundamentalismo?

– Há aqui uma tensão entre a religião que o poder saudita encorajou e financiou nas últimas décadas e os resultados que essa religião produziu. Hoje em dia, a Arábia Saudita está a pagar um preço pesadíssimo por ter ajudado a difundir e não controlar uma agenda político-religiosa que derivou para o fanatismo.

– Há uma certa contradição entre essa agenda religiosa e a aproximação de Riade aos EUA...

– Penso que o compromisso assumido pelo poder saudita, ao acolher os militares norte-americanos em 1990, foi dar mais força aos imãs fundamentalistas. E o fortalecimento dessa corrente wahabista, particularmente da sua versão mais extrema, a que as autoridades sauditas fecharam claramente os olhos durantes alguns anos, teve um resultado desastroso para a Arábia Saudita, que foi o aparecimento de um movimento jihadista global que visa claramente derrubar o regime saudita.

– E como é que será, daqui para a frente, a relação com os EUA?

– O petróleo continua a ser essencial para os EUA e essa dependênca energética leva a que haja um abraço que às vezes não é muito cómodo entre Riade e Washington, em que, por um lado, a casa real saudita aposta na sua sobrevivência política e, por outro, os EUA e os seus aliados procuram, acima de tudo, o petróleo a preços razoáveis. E penso que é nesta dança de mútuas dependências que vamos continuar.

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