Ambos os bairros estão localizados na comuna do Coxi, a 10 quilómetros do Santuário da Muxima.
Na vila angolana de Muxima, que vai receber o Papa Leão XIV dia 19, os moradores dos bairros "Vaticano" e "Terra Prometida" mostram-se gratos com a visita do Papa e esperam que traga "prosperidade, energia e água" à localidade.
Ambos os bairros -- um urbanizado, outro precário - estão localizados na comuna do Coxi, a 10 quilómetros do Santuário da Muxima -- e a maioria dos habitantes foram transferidos do bairro Catondo, que circundava a vila onde se celebra a peregrinação em honra de "Mamã Muxima"(Mãe do Coração, em kimbundu) um dos maiores eventos católicos da África Austral.
Com o início das obras de requalificação da vila de devoção mariana, as autoridades realojaram os moradores no Coxi, onde foram construídas casas sociais que albergam centenas de famílias, numa zona agora denominada por "Vaticano", relataram os populares à Lusa.
Disseram que a designação "Vaticano", não oficial, é uma homenagem à Igreja Católica local, que terá encorajado o Governo angolano a construir a nova vila habitacional.
Os restantes receberam lotes de terra, no lado oposto, num bairro que ganhou o nome de "Terra Prometida", onde construíram cabanas e estão ainda em construção casas de chapa e de pau-a-pique, enquanto os moradores sonham com a mudança para o "Vaticano", onde decorre a segunda fase das obras (no total estão previstas 1.400 residências).
Divididos por uma estrada, mas unidos na falta de água e energia, esta é a preocupação generalizada dos moradores que almejam que a visita de Leão XIV à região estimule as autoridades a garantirem os serviços básicos à população.
No bairro "Vaticano", Faustina Bernardo saudou o Governo angolano pelas residências que receberam, queixando-se, contudo, da falta de água e energia elétrica.
"É uma graça, é de agradecer, é uma honra (...) estamos no novo bairro, onde estamos com carência de água, carência de luz, mas agradecemos porque não é fácil termos casas que não contávamos e hoje estamos em casas lindas", disse à Lusa a moradora do "Vaticano".
Faustina agradeceu ainda o papel da Igreja Católica angolana, que terá concorrido para que o realojamento das famílias fosse uma realidade.
Naquele bairro urbanizado, onde foi já instalada uma unidade policial e estão a ser construídas mais casas, também reside Cesário Soares, 45 anos, natural da Muxima, região afeta ao município da Quiçama, província do Icolo e Bengo.
Aplaudindo a requalificação da Vila da Muxima, valorizou o realojamento no "condomínio do Vaticano", mas não deixou de lamentar a carência das populações, sobretudo no domínio da água e energia elétrica, queixando-se também de infiltrações de água da chuva nas moradias.
"Temos ainda falta de água, a população está a sofrer muito (...) acho que já deveríamos ter água. Estamos a comprar a água para beber e um bidon de 20 litros a 200 kwanzas (0,18 euros)", disse.
Em dia de sol abrasador, pouco depois das 13:00, faz-se sentir nesta zona urbanizada a falta de árvores para amenizar as altas temperaturas.
Cesário explicou que a designação informal do bairro "Vaticano" é uma "gratidão" à Igreja Católica, dado que o projeto emergiu com a requalificação da Muxima.
Leão XIV, que visita Angola entre 18 e 21 de abril, desloca-se à Vila da Muxima na tarde do dia 19 para rezar o terço e presidir a uma celebração eucarística no maior santuário mariano da África Subsaariana, onde as margens do Rio Kwanza oferecem um cenário de beleza e recolhimento.
"Em termos de mensagens esperamos que o Papa colabore mais um pouco com o Estado para que dê dignidade à população que recebeu este novo bairro (...) para ver se se resolve alguns problemas sociais dentro desta comunidade", acrescentou Cesário Soares.
Do lado oposto ao "Vaticano" estende-se a "Terra Prometida", bairro parcialmente urbanizado onde habitações precárias --- construções de chapa e pau-a-pique com argila --- coexistem com áreas já consolidadas, num contraste que se impõe aos visitantes.
Desde outubro de 2025 na "Terra Prometida", Natália Francisco é apenas uma entre dezenas de moradores do bairro, também originários da Vila da Muxima, que ainda sonha viver no "Vaticano".
A falta de água e energia está no topo das dificuldades dos moradores, apontou Natália, 27 anos, acreditando que a visita de Leão XIV deve estimular as autoridades a garantirem melhores condições de habitabilidade.
"Que nos ofereçam alguma coisa também como as casas [novas], porque é o sonho de cada um ter aquele tipo de modelo [de casas]", desejou.
Na passada terça-feira, o Presidente angolano autorizou obras emergenciais para eletricidade e abastecimento de água no valor de 3,56 mil milhões de kwanzas (3,38 milhões de euros) nos locais onde o Papa vai celebrar missas na sua visita a Angola, incluindo o Bairro Coxi.
Homens e máquinas continuam a trabalhar na Vila da Muxima, onde está em construção uma basílica com capacidade para acolher 4.600 fiéis e uma praça para mais de 200 mil peregrinos, cuja execução física atingiu já os 90%.
Entre as dezenas de jovens que encontraram o primeiro emprego neste macro projeto, a cargo do Gabinete das Obras Especiais da Presidência de Angola, está Jorge Rafael, 25 anos, cuja missão é pintar as paredes da basílica.
"A obra está a correr bem, estou a pintar as paredes da futura basílica, uma estrutura que tem grande importância, esperamos que o Papa aprove o nosso trabalho", afirmou à Lusa.
As obras decorrem e no local são visíveis alguns vendedores de refeições rápidas e bebidas, como o "maruvu" (bebida tradicional angolana obtida a partir da fermentação da seiva de palmeiras), cujos clientes são maioritariamente os operários das obras.
Anastácia Moreno Baptista, 27 anos, moradora do "Vaticano" e vendedora na Muxima garantiu que o Papa será recebido em apoteose: "Vamos lhe receber muito bem, que ele traga paz e harmonia, tudo, aqui à Quiçama".
Campos verdes, pequenos agricultores e vendedores à beira da estrada reabilitada, que liga a Vila de Catete -- capital do Icolo e Bengo -- à Vila da Muxima, num trajeto de 67 quilómetros, desenham o cenário para quem faz o percurso de automóvel.
A reabilitação da via foi destacada por Eduardo Mabeni, 67 anos, ex-professor na Quiçama e há mais de dez anos empreendedor agrícola na Muxima, que enalteceu as obras em curso, acreditando que vão estimular o turismo religioso.
"Muxima está sendo requalificada e todo esse benefício graças à vinda também do Papa, então achamos que os beneficiários somos todos nós, a Muxima, católicos e não católicos, todo o mundo e isso vai criar um turismo religioso", frisou.
Mabeni, também ex-seminarista católico, espera que Leão XIV traga para Angola "mensagens de paz", porque, observou, o mundo "neste momento está a ser sacudido por guerras, por tudo quanto é lado".
Tem sugestões ou notícias para partilhar com o CM?
Envie para geral@cmjornal.pt
o que achou desta notícia?
concordam consigo
A redação do CM irá fazer uma avaliação e remover o comentário caso não respeite as Regras desta Comunidade.
O seu comentário contem palavras ou expressões que não cumprem as regras definidas para este espaço. Por favor reescreva o seu comentário.
O CM relembra a proibição de comentários de cariz obsceno, ofensivo, difamatório gerador de responsabilidade civil ou de comentários com conteúdo comercial.
O Correio da Manhã incentiva todos os Leitores a interagirem através de comentários às notícias publicadas no seu site, de uma maneira respeitadora com o cumprimento dos princípios legais e constitucionais. Assim são totalmente ilegítimos comentários de cariz ofensivo e indevidos/inadequados. Promovemos o pluralismo, a ética, a independência, a liberdade, a democracia, a coragem, a inquietude e a proximidade.
Ao comentar, o Leitor está a declarar que é o único e exclusivo titular dos direitos associados a esse conteúdo, e como tal é o único e exclusivo responsável por esses mesmos conteúdos, e que autoriza expressamente o Correio da Manhã a difundir o referido conteúdo, para todos e em quaisquer suportes ou formatos actualmente existentes ou que venham a existir.
O propósito da Política de Comentários do Correio da Manhã é apoiar o leitor, oferecendo uma plataforma de debate, seguindo as seguintes regras:
Recomendações:
- Os comentários não são uma carta. Não devem ser utilizadas cortesias nem agradecimentos;
Sanções:
- Se algum leitor não respeitar as regras referidas anteriormente (pontos 1 a 11), está automaticamente sujeito às seguintes sanções:
- O Correio da Manhã tem o direito de bloquear ou remover a conta de qualquer utilizador, ou qualquer comentário, a seu exclusivo critério, sempre que este viole, de algum modo, as regras previstas na presente Política de Comentários do Correio da Manhã, a Lei, a Constituição da República Portuguesa, ou que destabilize a comunidade;
- A existência de uma assinatura não justifica nem serve de fundamento para a quebra de alguma regra prevista na presente Política de Comentários do Correio da Manhã, da Lei ou da Constituição da República Portuguesa, seguindo a sanção referida no ponto anterior;
- O Correio da Manhã reserva-se na disponibilidade de monitorizar ou pré-visualizar os comentários antes de serem publicados.
Se surgir alguma dúvida não hesite a contactar-nos internetgeral@medialivre.pt ou para 210 494 000
O Correio da Manhã oferece nos seus artigos um espaço de comentário, que considera essencial para reflexão, debate e livre veiculação de opiniões e ideias e apela aos Leitores que sigam as regras básicas de uma convivência sã e de respeito pelos outros, promovendo um ambiente de respeito e fair-play.
Só após a atenta leitura das regras abaixo e posterior aceitação expressa será possível efectuar comentários às notícias publicados no Correio da Manhã.
A possibilidade de efetuar comentários neste espaço está limitada a Leitores registados e Leitores assinantes do Correio da Manhã Premium (“Leitor”).
Ao comentar, o Leitor está a declarar que é o único e exclusivo titular dos direitos associados a esse conteúdo, e como tal é o único e exclusivo responsável por esses mesmos conteúdos, e que autoriza o Correio da Manhã a difundir o referido conteúdo, para todos e em quaisquer suportes disponíveis.
O Leitor permanecerá o proprietário dos conteúdos que submeta ao Correio da Manhã e ao enviar tais conteúdos concede ao Correio da Manhã uma licença, gratuita, irrevogável, transmissível, exclusiva e perpétua para a utilização dos referidos conteúdos, em qualquer suporte ou formato atualmente existente no mercado ou que venha a surgir.
O Leitor obriga-se a garantir que os conteúdos que submete nos espaços de comentários do Correio da Manhã não são obscenos, ofensivos ou geradores de responsabilidade civil ou criminal e não violam o direito de propriedade intelectual de terceiros. O Leitor compromete-se, nomeadamente, a não utilizar os espaços de comentários do Correio da Manhã para: (i) fins comerciais, nomeadamente, difundindo mensagens publicitárias nos comentários ou em outros espaços, fora daqueles especificamente destinados à publicidade contratada nos termos adequados; (ii) difundir conteúdos de ódio, racismo, xenofobia ou discriminação ou que, de um modo geral, incentivem a violência ou a prática de atos ilícitos; (iii) difundir conteúdos que, de forma direta ou indireta, explícita ou implícita, tenham como objetivo, finalidade, resultado, consequência ou intenção, humilhar, denegrir ou atingir o bom-nome e reputação de terceiros.
O Leitor reconhece expressamente que é exclusivamente responsável pelo pagamento de quaisquer coimas, custas, encargos, multas, penalizações, indemnizações ou outros montantes que advenham da publicação dos seus comentários nos espaços de comentários do Correio da Manhã.
O Leitor reconhece que o Correio da Manhã não está obrigado a monitorizar, editar ou pré-visualizar os conteúdos ou comentários que são partilhados pelos Leitores nos seus espaços de comentário. No entanto, a redação do Correio da Manhã, reserva-se o direito de fazer uma pré-avaliação e não publicar comentários que não respeitem as presentes Regras.
Todos os comentários ou conteúdos que venham a ser partilhados pelo Leitor nos espaços de comentários do Correio da Manhã constituem a opinião exclusiva e única do seu autor, que só a este vincula e não refletem a opinião ou posição do Correio da Manhã ou de terceiros. O facto de um conteúdo ter sido difundido por um Leitor nos espaços de comentários do Correio da Manhã não pressupõe, de forma direta ou indireta, explícita ou implícita, que o Correio da Manhã teve qualquer conhecimento prévio do mesmo e muito menos que concorde, valide ou suporte o seu conteúdo.
ComportamentoO Correio da Manhã pode, em caso de violação das presentes Regras, suspender por tempo determinado, indeterminado ou mesmo proibir permanentemente a possibilidade de comentar, independentemente de ser assinante do Correio da Manhã Premium ou da sua classificação.
O Correio da Manhã reserva-se ao direito de apagar de imediato e sem qualquer aviso ou notificação prévia os comentários dos Leitores que não cumpram estas regras.
O Correio da Manhã ocultará de forma automática todos os comentários uma semana após a publicação dos mesmos.
Para usar esta funcionalidade deverá efetuar login.
Caso não esteja registado no site do Correio da Manhã, efetue o seu registo gratuito.
Escrever um comentário no CM é um convite ao respeito mútuo e à civilidade. Nunca censuramos posições políticas, mas somos inflexiveis com quaisquer agressões. Conheça as
Inicie sessão ou registe-se para comentar.