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Bairros "Vaticano" e "Terra Prometida" saúdam Leão XIV e pedem água e energia

Ambos os bairros estão localizados na comuna do Coxi, a 10 quilómetros do Santuário da Muxima.

12 de abril de 2026 às 07:36

Na vila angolana de Muxima, que vai receber o Papa Leão XIV dia 19, os moradores dos bairros "Vaticano" e "Terra Prometida" mostram-se gratos com a visita do Papa e esperam que traga "prosperidade, energia e água" à localidade.

Ambos os bairros -- um urbanizado, outro precário - estão localizados na comuna do Coxi, a 10 quilómetros do Santuário da Muxima -- e a maioria dos habitantes foram transferidos do bairro Catondo, que circundava a vila onde se celebra a peregrinação em honra de "Mamã Muxima"(Mãe do Coração, em kimbundu) um dos maiores eventos católicos da África Austral.

Com o início das obras de requalificação da vila de devoção mariana, as autoridades realojaram os moradores no Coxi, onde foram construídas casas sociais que albergam centenas de famílias, numa zona agora denominada por "Vaticano", relataram os populares à Lusa.

Disseram que a designação "Vaticano", não oficial, é uma homenagem à Igreja Católica local, que terá encorajado o Governo angolano a construir a nova vila habitacional.

Os restantes receberam lotes de terra, no lado oposto, num bairro que ganhou o nome de "Terra Prometida", onde construíram cabanas e estão ainda em construção casas de chapa e de pau-a-pique, enquanto os moradores sonham com a mudança para o "Vaticano", onde decorre a segunda fase das obras (no total estão previstas 1.400 residências).

Divididos por uma estrada, mas unidos na falta de água e energia, esta é a preocupação generalizada dos moradores que almejam que a visita de Leão XIV à região estimule as autoridades a garantirem os serviços básicos à população.

No bairro "Vaticano", Faustina Bernardo saudou o Governo angolano pelas residências que receberam, queixando-se, contudo, da falta de água e energia elétrica.

"É uma graça, é de agradecer, é uma honra (...) estamos no novo bairro, onde estamos com carência de água, carência de luz, mas agradecemos porque não é fácil termos casas que não contávamos e hoje estamos em casas lindas", disse à Lusa a moradora do "Vaticano".

Faustina agradeceu ainda o papel da Igreja Católica angolana, que terá concorrido para que o realojamento das famílias fosse uma realidade.

Naquele bairro urbanizado, onde foi já instalada uma unidade policial e estão a ser construídas mais casas, também reside Cesário Soares, 45 anos, natural da Muxima, região afeta ao município da Quiçama, província do Icolo e Bengo.

Aplaudindo a requalificação da Vila da Muxima, valorizou o realojamento no "condomínio do Vaticano", mas não deixou de lamentar a carência das populações, sobretudo no domínio da água e energia elétrica, queixando-se também de infiltrações de água da chuva nas moradias.

"Temos ainda falta de água, a população está a sofrer muito (...) acho que já deveríamos ter água. Estamos a comprar a água para beber e um bidon de 20 litros a 200 kwanzas (0,18 euros)", disse.

Em dia de sol abrasador, pouco depois das 13:00, faz-se sentir nesta zona urbanizada a falta de árvores para amenizar as altas temperaturas.

Cesário explicou que a designação informal do bairro "Vaticano" é uma "gratidão" à Igreja Católica, dado que o projeto emergiu com a requalificação da Muxima.

Leão XIV, que visita Angola entre 18 e 21 de abril, desloca-se à Vila da Muxima na tarde do dia 19 para rezar o terço e presidir a uma celebração eucarística no maior santuário mariano da África Subsaariana, onde as margens do Rio Kwanza oferecem um cenário de beleza e recolhimento.

"Em termos de mensagens esperamos que o Papa colabore mais um pouco com o Estado para que dê dignidade à população que recebeu este novo bairro (...) para ver se se resolve alguns problemas sociais dentro desta comunidade", acrescentou Cesário Soares.

Do lado oposto ao "Vaticano" estende-se a "Terra Prometida", bairro parcialmente urbanizado onde habitações precárias ---  construções de chapa e pau-a-pique com argila --- coexistem com áreas já consolidadas, num contraste que se impõe aos visitantes.

Desde outubro de 2025 na "Terra Prometida", Natália Francisco é apenas uma entre dezenas de moradores do bairro, também originários da Vila da Muxima, que ainda sonha viver no "Vaticano".

A falta de água e energia está no topo das dificuldades dos moradores, apontou Natália, 27 anos, acreditando que a visita de Leão XIV deve estimular as autoridades a garantirem melhores condições de habitabilidade.

"Que nos ofereçam alguma coisa também como as casas [novas], porque é o sonho de cada um ter aquele tipo de modelo [de casas]", desejou.

Na passada terça-feira, o Presidente angolano autorizou obras emergenciais para eletricidade e abastecimento de água no valor de 3,56 mil milhões de kwanzas (3,38 milhões de euros) nos locais onde o Papa vai celebrar missas na sua visita a Angola, incluindo o Bairro Coxi.

Homens e máquinas continuam a trabalhar na Vila da Muxima, onde está em construção uma basílica com capacidade para acolher 4.600 fiéis e uma praça para mais de 200 mil peregrinos, cuja execução física atingiu já os 90%.

Entre as dezenas de jovens que encontraram o primeiro emprego neste macro projeto, a cargo do Gabinete das Obras Especiais da Presidência de Angola, está Jorge Rafael, 25 anos, cuja missão é pintar as paredes da basílica.

"A obra está a correr bem, estou a pintar as paredes da futura basílica, uma estrutura que tem grande importância, esperamos que o Papa aprove o nosso trabalho", afirmou à Lusa.

As obras decorrem e no local são visíveis alguns vendedores de refeições rápidas e bebidas, como o "maruvu" (bebida tradicional angolana obtida a partir da fermentação da seiva de palmeiras), cujos clientes são maioritariamente os operários das obras.

Anastácia Moreno Baptista, 27 anos, moradora do "Vaticano" e vendedora na Muxima garantiu que o Papa será recebido em apoteose: "Vamos lhe receber muito bem, que ele traga paz e harmonia, tudo, aqui à Quiçama".

Campos verdes, pequenos agricultores e vendedores à beira da estrada reabilitada, que liga a Vila de Catete -- capital do Icolo e Bengo -- à Vila da Muxima, num trajeto de 67 quilómetros, desenham o cenário para quem faz o percurso de automóvel.

A reabilitação da via foi destacada por Eduardo Mabeni, 67 anos, ex-professor na Quiçama e há mais de dez anos empreendedor agrícola na Muxima, que enalteceu as obras em curso, acreditando que vão estimular o turismo religioso.

"Muxima está sendo requalificada e todo esse benefício graças à vinda também do Papa, então achamos que os beneficiários somos todos nós, a Muxima, católicos e não católicos, todo o mundo e isso vai criar um turismo religioso", frisou.

Mabeni, também ex-seminarista católico, espera que Leão XIV traga para Angola "mensagens de paz", porque, observou, o mundo "neste momento está a ser sacudido por guerras, por tudo quanto é lado".

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