Leigo queixa-se da pressão social e dos "efeitos devastadores das terapias de conversão".
Um relatório divulgado pelo Vaticano sobre a integração de homossexuais na Igreja e, esta quarta-feira, consultado pela Lusa inclui o testemunho de um leigo português que se queixou da pressão social e dos "efeitos devastadores das terapias de conversão".
"Não posso ignorar as cicatrizes que carrego. Testemunhei os efeitos devastadores das 'terapias de conversão' e a desagregação de famílias, o que me pareceu um ataque à criação sensível e irrepreensível de Deus", referiu o leigo, ouvido num grupo sinodal português, um dos muitos que promoveu discussões para ajudar o Papa a tomar decisões.
"Estas experiências magoam profundamente, porque atacam a dignidade inerente de uma pessoa que simplesmente nutre amor por outra do mesmo género", acrescentou a testemunha.
O processo sinodal foi iniciado pelo Papa Francisco para auscultar as bases da Igreja Católica sobre temas considerados fraturantes, desde o acolhimento aos homossexuais, ao celibato dos sacerdotes, passando pelo papel das mulheres ou dos católicos recasados.
Na terça-feira, a Secretaria-Geral do Sínodo publicou um relatório, divulgado pela agência Ecclesia, que propõe soluções para a integração de pessoas homossexuais na Igreja Católica.
No relatório, consta o testemunho do leigo português, que esta quarta-feira assume a sua homossexualidade e faz parte da Comunidade de Vida Cristã, uma organização jesuíta de leigos a quem agradece o facto de a sua "sexualidade não ser tratada como um tema de maior relevância".
"Pessoalmente, nunca enfrentei confrontos públicos por simples gestos de afeto com o meu marido", mas "há uma década, a pergunta de um diretor espiritual magoou-me profundamente: ele sugeriu que eu poderia ter casado com uma mulher para 'encontrar paz' e 'usar os meus dons'', uma vez que o casamento não se resume 'apenas à sexualidade'", refere o católico no testemunho.
Então, "senti-me ofendido: era uma sugestão para prejudicar uma mulher, privando-a da oportunidade de ser completamente amada e desejada", apenas "para satisfazer uma expectativa social".
Para o crente, "a Igreja precisa de ir além do mero 'acolhimento' e da 'piedade'" na relação com os homossexuais católicos.
"Precisamos de proclamar a verdade não dita: Deus ama-te e deseja a tua plenitude. A sexualidade é uma parte da nossa vida, e a diferença é uma marca distintiva da Criação", refere a testemunha, esta quarta-feira em paz com a condição de homossexual e católico.
"Sou muito mais do que um rótulo. Vivo a minha vida em profunda paz com Deus, que me conhece desde o ventre da minha mãe" e "falo abertamente sobre a minha realidade quando é apropriado".
O leigo conta que as suas primeiras paixões "seguiam as normas sociais das relações heterossexuais", mas com o amadurecimento percebeu que a intensidade dos seus sentimentos por alguns rapazes "era diferente".
Essa consciência levou-o então a uma "imensa sensação de desconexão e a uma profunda solidão".
"O silêncio ou a aversão percebidos em relação ao tema nos ambientes sociais e, fundamentalmente, dentro da Igreja, obrigaram-me a levar uma vida dupla", reconheceu a testemunha, casada há 20 anos, numa relação não abençoada pela hierarquia católica.
O documento final do grupo de estudo, que junta testemunhos de vários países, aponta para a necessidade de uma "mudança de paradigma na missão da Igreja e as dinâmicas do processo sinodal que a promovem", principalmente no que respeita a "questões emergentes" da sociedade.
Estes relatórios do processo sinodal visam aconselhar a hierarquia e, neste documento, é proposto um "princípio da pastoralidade", em que se respeite as opções individuais, desde que existam práticas consistentes de fé.
A Igreja, sugerem os autores, não deve buscar "uma resolução de problemas" individuais dos fiéis, mas sim a "construção do bem comum", com respeito das situações pessoais.
"O ponto de partida não consiste na correção (em nível doutrinário, pastoral, ético) de eventuais situações consideradas problemáticas na experiência concreta do fiel, mas no reconhecimento e no discernimento das instâncias de bem que as práticas de fé expressam", lê-se nas conclusões.
O relatório alerta que as "posições polarizadas" causam "profundo sofrimento, feridas pessoais e experiências de marginalização ou 'vidas duplas' para crentes com atração pelo mesmo sexo".
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