Menores não sorriem e demoram a confiar.
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As crianças que fogem da violência da província moçambicana de Cabo Delgado não sorriem e, ao mínimo barulho, gritam "arma" e escondem-se, demorando tempo até voltarem a confiar em alguém, segundo o relato de uma religiosa portuguesa em Lichinga.
Mónica da Rocha, da Congregação das Irmãs Reparadoras de Nossa Senhora de Fátima, em missão há três anos em Lichinga, passa os dias a ajudar a concertar as vidas que os ataques terroristas destruíram nesta região.
A violência nesta zona dura há anos, mas captou a atenção internacional após um ataque, em 24 de março, na vila de Palma, ter atingido estrangeiros e ocorrido perto da exploração de gás da petrolífera francesa Total.
O ataque fez dezenas de mortos e o conflito que se arrasta há três anos e meio já provocou mais de 700 mil deslocados, segundo as Nações Unidas, e cerca de 2.500 vítimas mortais, de acordo com contas feitas pela agência Lusa.
Palma fica distante, mas é natural que muitos dos que daí fogem acabem por chegar a Lichinga, juntando-se a outros com iguais heranças de medo e fuga.
"Eles fogem para não serem mortos, para sobreviver. Quem não foge, morre ou então tem de viver no mato durante muito tempo", contou à agência Lusa a religiosa portuguesa, natural de Arouca.
Um dos deslocados contou que o Governo lhe deu armas para combater os terroristas, mas que no primeiro dia em que saíram para o combate um colega foi morto. Então, ele apercebeu-se que ou fugia ou acabaria igualmente morto e pôs-se em fuga, disse.
Em Lichinga existem dois campos de deslocados: Málica, com cerca de 300 pessoas, distribuídas por 51 tendas, e Sanjala, com 100 pessoas.
Segundo a religiosa, além destes campos, existem várias famílias que chegaram através de um familiar ou alguém que, de boa-fé, os acolheu. São sete as famílias distribuídas por casas ou partes de casa que se encontravam desabitadas.
Mas até para partir das suas aldeias, destruídas ou ameaçadas pelos terroristas, estes deslocados precisam de ter algum dinheiro para pagar o transporte, o que nem todos têm.
"Quando chegam, durante o primeiro tempo, tanto os adultos como as crianças, revelam um estado de tristeza, desorientação, sentem-se perdidos, deslocados mesmo do contexto, e nota-se mesmo o sofrimento. Mas passado um tempo, dois, três meses, ficam diferentes, mais resignados, com uma atitude de quem já se sente na sua nova casa, no seu novo espaço, de alguém que já não quer voltar", contou a freira.
Os traumas estão muito presentes e, principalmente as crianças, quando chegam não sorriem, fogem das pessoas e escondem-se, disse.
"Visitei uma família, em que o avô morreu e a avó fugiu com os dois netos, de 8 e 4 anos. Os pais destas crianças ninguém sabe se estão vivos ou mortos. A menina de 4 anos, sempre que ouve um barulho, agarra-se à avó e grita: Arma!".
Os muitos que assistiram à violência, e que para dela fugir largaram tudo, contam histórias de terror, de corpos cortados, queimados, de aldeias destruídas, disse, acrescentando que se referem aos terroristas como "bárbaros" e não conseguem apontar uma razão para tanta violência.
Assim que conseguem estabilizar, após a longa e desgastante viagem, começam a sentir a nova terra como sua e só pedem um pouco de terra e ajuda para construir uma casa e poderem tirar da terra o sustento, referiu Mónica da Rocha.
O tempo chuvoso que se tem feito sentir não ajudou, mas agora, com a chegada do tempo seco, a prioridade é erguer uma casa e trabalhar a terra, acrescentou.
Para quem ajuda, como a religiosa Mónica da Rocha, as crianças são prioritárias e o objetivo é mantê-las na escola, o que não é fácil, tendo em conta que esta frequência depende do uso de uniforme e de material, para o qual as famílias não têm dinheiro.
A freira ajuda a facultar o uniforme e o material escolar e disse que da parte das crianças vontade não falta.
"Elas querem ir [à escola]. Algumas não falam português, porque na zona de onde vêm, muitas delas não falam, mas algumas que vieram já aprenderam algumas coisas e elas querem estudar", disse.
Segundo Mónica da Rocha, a pandemia de covid-19 veio dificultar ainda mais a vida a estes deslocados que, não obstante as ações de sensibilização, não conseguem compreender por que têm de usar uma máscara, além de que não lhes é fácil ter os devidos cuidados de higiene e tão pouco assegurar o distanciamento social.
"Eles dizem que têm fome, têm tantos problemas, tantas dificuldades. O vírus é uma coisa invisível", concluiu.
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