Mizunga, aldeia natal da jovem, de 15 anos, na província de Tete, não tem uma escola secundária.
Egesse Patrício, 15 anos, resistiu a um casamento prematuro quando concluiu o ensino primário. Agora, para continuar os estudos, tem outro desafio: percorrer 14 quilómetros a pé e atravessar de canoa um rio do centro de Moçambique.
Mizunga, aldeia natal de Egesse na província de Tete, não tem uma escola secundária e, geralmente, quando as crianças da região concluem o ensino primário, são entregues a casamentos e tratam de pastorear gado.
São práticas largamente desencorajadas por conselhos de escolas, que lutam para erradicar o analfabetismo, perante várias adversidades para o acesso ao ensino.
Só que as práticas prevalecem entre os anciãos das aldeias.
A criança que as desafiar tem de procurar o ensino em Mandie, um posto administrativo da província de Manica, como faz Egisse.
Percorre vários quilómetros a pé em caminhos estreitos de argila e atravessar o rio Luenha, um braço do Zambeze, numa canoa esculpida à mão ou com água pela cintura - consoante a época do ano e o caudal.
"Eu estudo em Mandie, passo todos os dias aqui e agora atravesso esse rio de canoa para conseguir chegar à escola", diz Egesse Patrício à Lusa em nhungue, a língua local de Tete.
A jovem moçambicana teve o raro apoio dos pais para desafiar os anciãos e continuar a frequentar o ensino secundário em Mandie.
Um total de 46 alunos de quatro aldeias do distrito de Changara (Chambuluca, Gama, Mizunga e Nhamagoa) atravessa todos os dias o rio Luenha para frequentar o ensino em Mandie, uma povoação de casas precárias de estaca e barro, poucas de alvenaria, erguidas no meio de escombros de antigos edifícios coloniais.
A travessia do rio, numa extensão de cerca 50 metros, é feita nesta época seca - quando o nível do caudal se encontra baixo - em duas faixas: uma mais funda com canoas improvisadas com troncos de árvores e outra a pé com a água nos joelhos ou cintura.
"Este lado (Gama) não tem escola secundária. Temos atravessado este rio para estudar em Mandie. Atravessamos a pé e por vezes com canoa", explica Domingo Afonso, 15 anos, aluno do nono ano de escolaridade e que há dois anos faz a travessia do rio.
Outra aluna, Enelma Fernando, 15 anos, aluna do oitavo ano, conta que no início do ano letivo o rio "esteve violento" por vários dias e perdeu algumas aulas porque os pais, por precaução, não permitiram a travessia.
Joaquim Matchissa, um residente, já teve os dois filhos a estudar em Mandie e confirma o receio, que é maior durante a época chuvosa (de outubro a março), que coincide com o início do ano letivo (fevereiro).
Outros pais alugam palhotas na margem de Mandie para os filhos continuarem a frequentar o ensino, sem correr riscos no rio.
Cristopher Baera, diretor da escola secundária de Mandie, diz que tem encorajado os pais a colocar os alunos em internato, num espaço antes composto por palhotas de estacas e capim, agora melhorado com casas de alvenaria, para evitar travessias diárias do rio.
Mas este ano só dois alunos o fizeram.
É um desafio, reconhece: "estamos nesta luta de combater o analfabetismo, mesmo com crianças a atravessar o rio", explica à Lusa.
E quem não quiser atravessar o rio? Tem de percorrer cerca de 35 quilómetros a pé por caminhos degradados de argila e pedregulhos até Missawa, onde há outra escola secundária.
No sentido inverso aos alunos, a população de Mandie atravessa o rio para o lado de Changara para se abastecer nos mercados da capital provincial de Tete - a cerca de 90 quilómetros - e também para escoar a produção agrícola, principal atividade económica familiar.
A construção de uma ponte para a ligação interdistrital "seria um incentivo" para o comércio e agricultura, diz à Lusa Maximiano Macapula, chefe do posto administrativo de Mandie.
Além disso, serviria a educação, promovendo a acessibilidade a estabelecimentos de ensino, fulcral para erradicar o analfabetismo.
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