Majid Tafreshi afirmou que Teerão recusa usar a força, ao contrário de países, como Israel, que disse ter sido criado pela força, em 1947.
O embaixador iraniano em Lisboa defendeu,este sábado, que o Irão deve ser líder na região do Médio Oriente, afirmando que Teerão recusa usar a força, ao contrário de países, como Israel, que disse ter sido criado pela força, em 1947.
Numa entrevista à agência Lusa, Majid Tafreshi defendeu também que o Irão "mantém boas relações" com a vizinha Síria, mesmo depois da queda do regime de Bashar al-Assad, em dezembro de 2024, e que Damasco deveria realizar um referendo para determinar os novos poderes.
"As negociações continuam, mas estamos a olhar para quem vai liderar e o que esse Estado soberano deve ser. Penso que deveria haver um referendo. Mas, de qualquer forma, o Irão e o povo sírio não têm nenhum problema entre eles. Estamos a falar sobre uma nação, com quem temos uma boa relação. Muitos deles estão refugiados no Irão", argumentou o diplomata iraniano.
Para Tafreshi, os que pretendem liderar o Médio Oriente, "os que têm a civilização, que usam o poder da lógica", devem assumir essa responsabilidade, contrastando com os "outros", esses que "usam a força, bombardeiam e matam pessoas inocentes".
"Isso não é um privilégio e não é um dom. Nós não precisamos de ser uma superpotência. Mas não há dúvida de que, se houver dois poderes regionais no Médio Oriente, definitivamente em qualquer fórmula, um deles deve ser o Irão", sustentou.
"Mas, na prática, sim, o Irão tem milhares de anos de história, situa-se na região do Pérsia e do Golfo, tem 1,7 milhões de quilómetros quadrados, 90 milhões de pessoas, o país mais rico baseado na população. Tem 1% da população do mundo inteiro e cerca de 7,5% das reservas de todo o petróleo. Não se pode ignorar esse poder, que creio que deve seguir na direção de produção de riqueza, turismo, investimentos e não competir para armamento, desarmamento, armas e mais armas", acrescentou.
Sobre uma eventual guerra com Israel, Tafreshi frisou que o Irão está pronto para se defender, "o que tem feito ao longo de 300 anos", sublinhando que os 12 dias de conflito (de 13 a 24 de junho) "não foram inesperados, nem necessários".
"O Irão deve ser mais e mais poderoso na proteção do próprio país. A fórmula para a autodefesa do Irão vai ser desenvolvida. Israel foi criado, mas não existe, pela força, em 1947, quando [o atual Presidente do Estados Unidos, Donald] Trump tinha 18 meses de idade, na época, através de uma resolução", argumentou o diplomata iraniano.
"Não vou encorajar ou ser contra nenhuma entidade, mas quando se fala sobre o Hezbollah, é necessário lembrar que estão a defender o seu país e a lei internacional, pelo que não podem considerá-los terroristas", sublinhou Tafreshi, lembrando que o movimento xiita libanês pró-iraniano tem deputados no Parlamento.
Questionado pela Lusa sobre como vê a exigência de Israel ao Líbano para desarmar o Hezbollah, movimento xiita pró-iraniano, o diplomata ironizou: "Quem é Israel? Está a falar de um criador de Gaza ou o quê?".
"Temos de analisar primeiro quem está a discutir o quê. Penso que se Israel defende a paz e segurança no mundo deve começar por si próprio. E minimizar ou não a questão, esquecer o uso de força. Desarmar a resistência é fora da hegemonia. Se a hegemonia parar, não há mais resistência", respondeu.
"Qual é a filosofia do Movimento dos Não-Alinhados por muitos anos, 56 anos? Quando se vê na Argélia, na Indonésia, em qualquer lugar, quando a hegemonia foi feita por [países europeus colonizadores], percebe-se que a resistência foi automática e acabou tudo. Então, temos de nos focar na leitura do Comité Internacional de Uso de Força contra outras nações opressoras e não falar sobre desarmar nações opressoras que estão a lutar pela sua própria segurança e paz no seu próprio país", acrescentou.
Sobre a ofensiva israelita em Gaza, em curso há 22 meses e que é vários países e organizações classificam de genocídio, Tafreshi lamentou a falta de ação da comunidade internacional.
"Do sul ao norte, todos falam sobre essas ações bárbaras. E isso não é útil. Os europeus, com toda a sua força, devem condenar esse padrão duplo para usar a força contra a nação opressora e escolher o que é genocídio e o que não é, e qual é o crime de guerra. Acho que isso não é útil para a paz e a segurança na guerra, incluindo a paz e a segurança dentro da Europa", concluiu.
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