O governo espanhol respondeu ontem às acusações do Papa João Paulo II e esclareceu que “a fé não pertence ao estado, mas sim às pessoas”. O ministro da Defesa, José Bono, retribuiu assim o ataque com novo ataque, e criticou, nomeadamente, a atitude do Vaticano face ao preservativo. “Não aceito que seja considerada pecadora uma pessoa que põe o preservativo para não contagiar alguém com sida depois de, por exemplo, lhe ter sido transmitida por uma transfusão sanguínea”, salientou Bono.
“Ninguém pode imputar ao Estado a responsabilidade pela expansão do laicismo”, afirmou ainda o ministro, avançando de seguida críticas ao tradicionalismo da Igreja, mas ressalvando o seu respeito pelo Papa. “Alguns responsáveis católicos deveriam pensar que as suas atitudes excessivamente antiquadas afastam as pessoas”, afirmou.
O bispo de Roma, recorde-se, aproveitou a visita de um grupo de prelados espanhóis para tecer críticas alargadas às reformas do governo espanhol, considerando, nomeadamente, que as políticas do primeiro-ministro socialista José Luis Rodríguez Zapatero “promovem o desprezo pelo religioso”.
As críticas do Sumo Pontífice católico visavam uma série de medidas liberais, como o projecto de lei que autoriza o casamento entre homossexuais, a reforma da lei do divórcio, ou a permissão de experiências com embriões. “Cristo estaria hoje mais preocupado com as 25 mil crianças que morrem de fome todos os dias, ou com as guerras”, afirmou ainda Bono, considerando que a Espanha, apesar das reformas, é o país europeu que mais apoia a Igreja.
Entretanto, a polícia chamou ontem a depor dois membros da direcção local do Partido Popular (PP) em las Rozas. O motivo são as agressões de que Bono foi vítima durante uma manifestação naquela localidade na tarde de sábado. Isidoro Barrios e Toñi de la Cruz foram vistos junto do ministro em várias fotografias pouco antes das agressões.
Barrios surge numa das imagens com uma bandeira espanhola com a haste partida. Essa haste está a ser comparada com uma barra que surge numa foto da Polícia na altura da agressão.
"Como quer que as interpretemos, as palavras do Papa são excessivamente duras e até injustas, tendo em conta que as relações entre a Santa Sé e Espanha são guiadas por uma concordata, assinada em 1979, que nenhuma das partes denunciou." Editorial ‘El País’
"Não podemos partilhar o diagnóstico, pois não é verdade que na Espanha das procissões, das romarias, das missas do Galo ou das mobilizações maciças para as próprias visitas do Papa exista qualquer obstáculo para a livre expressão ou o culto da fé católica." Editorial ‘El Mundo’
"Com a prudência adequada ao caso, João Paulo II deixou claros o direito e o dever que cabem aos bispos de velar pelo direito à vida e pelos elementos básicos do casamento e da família, em referência muito precisa aos planos precipitados e pouco justificáveis do governo em assuntos que a sociedade espanhola não considera prioritários." Editorial ‘ABC’
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