Os 25 mortos do acidente foram sepultados no domingo.
Tatiana de Pina perdeu sete familiares no acidente que matou 25 pessoas no Fogo, Cabo Verde, e viaja para a ilha esta segunda-feira, já depois dos funerais, para se juntar à família, dez anos depois da última visita.
"São sete [familiares] que já foram sepultados e nós não conseguimos estar com eles nesse momento de tamanha dor", disse Tatiana à Lusa no aeroporto da Praia, horas antes de embarcar para o Fogo.
Tatiana tentou viajar para a ilha nos dois voos de domingo, mas não conseguiu e acabou por esperar até esta segunda-feira pela confirmação da viagem.
Chegou ao aeroporto da Praia às 06h00 (08h00 em Lisboa), depois de deixar os contactos para ser incluída entre os familiares que pretendiam deslocar-se ao Fogo.
"Se tivéssemos tido mais transporte, poderíamos ter ido ontem [domingo] de manhã para o funeral", afirmou.
Tatiana, com 31 anos, perdeu um tio, primos e sobrinhos no acidente e soube da tragédia na manhã de sábado, quando o pai, que está nos Estados Unidos, lhe telefonou para dizer que havia familiares entre os feridos.
"Era mais um passeio, como sempre", contou, recordando que o motorista organizava todos os anos uma saída com os estudantes que transportava durante o ano letivo, como forma de convívio no final do período escolar.
"Eram jovens com ambição, outros estavam a terminar a escola", disse.
Entre os familiares que aguardavam esta segunda-feira no aeroporto estava também Luis Lopes, 25 anos, residente na Praia, que perdeu cinco familiares no acidente e tem ainda dois hospitalizados.
"Quando eu chegar já não encontro funeral. Tudo aconteceu ontem [domingo]", disse à Lusa, explicando que quer chegar ao Fogo para acompanhar a mãe, que ficou sozinha, e estar junto da restante família.
Luis contou que deixou o contacto no domingo e esperou pela confirmação da viagem, que ainda não chegou, depois de o Governo ter anunciado que iria assegurar o transporte dos familiares das vítimas.
"Eram praticamente meus irmãos, pessoas incríveis", afirmou, lembrando que tinha estado no Fogo no ano passado, mas já não via alguns dos familiares há algum tempo.
Também Aldina Correia, 70 anos, residente na Praia há 47 anos, perdeu dois sobrinhos e não ia ao Fogo há quatro anos, mas decidiu viajar mesmo depois de os familiares terem sido sepultados.
"Já foram enterrados, mas vou mesmo assim", disse à Lusa, contando que conseguiu confirmar esta segunda-feira a viagem e que pretende juntar-se à família na ilha.
"Isso nunca tinha acontecido na nossa terra", lamentou.
José Moeda, 66 anos, soube do acidente através das redes sociais e chegou à Praia, vindo dos Estados Unidos, para seguir também para o Fogo, onde perdeu familiares e amigos.
"Sinto-me muito triste, perda de familiares, de amigos. Não temos nada a fazer. Os funerais já foram feitos. Vou visitar os familiares", disse.
Os 25 mortos do acidente foram sepultados no domingo, na ilha do Fogo.
Sete funerais realizaram-se durante a madrugada e os restantes 18 começaram ao final da manhã.
O acidente ocorreu no sábado, quando um autocarro que transportava estudantes saiu da estrada na zona de Campanas de Cima, no município de São Filipe, e caiu por uma encosta com cerca de 30 metros.
As vítimas integravam um grupo que participava num passeio anual organizado pelo motorista do autocarro, segundo o delegado da Educação no Fogo, José Pedro Gonçalves.
O acidente provocou ainda dezenas de feridos, alguns dos quais continuam internados no Hospital Regional São Francisco de Assis, em São Filipe.
Perante a dificuldade de vários familiares em deslocarem-se à ilha para os funerais, o Governo cabo-verdiano anunciou que asseguraria as viagens dos familiares diretos das vítimas entre a Praia, na ilha de Santiago, onde se situa a capital do país, e o Fogo.
A companhia aérea cabo-verdiana CVSky anunciou na noite de domingo um voo extra entre Santiago e o Fogo para facilitar a deslocação de familiares, equipas de apoio e autoridades após o acidente.
O Governo cabo-verdiano decretou dois dias de luto.
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