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Guerra chegou aos chimpanzés do Uganda

Cientistas apontam três possíveis causas para esta cisão, mas não há certezas. Já morreram pelo menos 24 primatas.

15 de abril de 2026 às 01:30

O maior grupo de chimpanzés do mundo está numa autêntica guerra civil. Ninguém sabe ao certo porquê, mas o conflito durará há oito anos e já terá feito 24 mortos (incluindo crias). O levantamento foi feito por um conjunto de cientistas, liderado por Aaron Sandel, que publicou o estudo na revista ‘Science’.

Segundo o antropologista da Universidade do Texas (Estados Unidos), a comunidade de chimpanzés Ngogo – residente no Parque Nacional de Kibale, no Uganda – era “muito próxima”. Os machos chegaram mesmo a caçar e a defender o território em conjunto.

Para chegarem a esta conclusão, os cientistas dividiram o grupo de mais de 200 animais. Um passou a ser o da área oeste, com o outro a ficar na zona central. A primeira cisão entre os primatas terá ocorrido em 2015, quando os grupos se evitaram durante um mês e meio. As interações passaram a ser mais escassas nessa altura. Quando os chimpanzés voltaram a interagir, fizeram-no de forma "mais agressiva e intensa", segundo disse Sandel num podcast da revista 'Science', citado pela BBC. Terá sido nesta altura que os dois grupos se começaram a afastar.

Ainda que só tenham detetado 24 mortes, os cientistas acreditam que o número de baixas possa ser maior. 

Não tendo certezas do que motiva as desavenças entre os primatas, os cientistas apontam três causas possíveis. A primeira, desconfiam, pode estar em 2014. Nesse ano, cinco machos adultos e uma fêmea morreram por causas desconhecidas. Isto pode ter quebrado as ligações sociais dos chimpanzés e enfraqueceu os laços. No ano seguinte, um dos macho-alfa mudou. Esta morte coincidiu com o primeiro período de separação entre as fações. Segundo Aaron Sandel, as mudanças na figura dominante “podem aumentar os níveis de agressividade”. Por fim, a morte de 25 chimpanzés devido a uma epidemia respiratória, em 2017 (um ano antes da cisão final) pode também ter contribuído para este desfecho. Uma das vítimas era responsável por “conectar” os dois grupos.

Com todas as hipóteses em aberto, os investigadores consideram que estes comportamentos podem mostrar como o conflito humano evoluiu ao longo dos tempos.

Antigos aliados foram os primeiros alvos

Segundo os cientistas, os primeiros alvos após a cisão entre os grupos foram os animais que, outrora, alimentavam-se e patrulhavam juntos. Os investigadores argumentam que isto mostra que se os primatas se atacam não tendo religião ou ideais políticos, “as dinâmicas interpessoais podem desempenhar um papel maior no conflito” do que inicialmente se pensava.

De acordo com o primatologista Sylvain Lemoine, este caso pode também mostrar como os humanos evoluíram. Citado pelo jornal ‘The New York Times’, o cientista, que não participou no estudo, afirmou: “Estas conclusões dizem-nos que, de facto, estas espécies de guerras civis podem ter acontecido durante a evolução humana.”

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