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Morreu Henry Kissinger, o maior estratega da diplomacia dos EUA. Tinha 100 anos

Carismático e controverso, antigo secretário de Estado norte-americano foi galardoado com o Nobel da Paz.

30 de novembro de 2023 às 02:04

O antigo secretário de Estado norte-americano, Henry Kissinger, morreu às primeiras horas desta quinta-feira (noite de quarta-feira em Washington, nos EUA). Tinha 100 anos.

Diplomata carismático nos anos 70, foi secretário de Estado e Conselheiro de Segurança Nacional dos Estados Unidos nos governos dos presidentes Richard Nixon e Gerald Ford. Foi galardoado com o Nobel da Paz. Aplaudido e contestado, é considerado o artífice da diplomacia norte-americana no pós-guerra e reconhecido como um negociador hábil nos tempos mais quentes da Guerra Fria.

Henry Kissinger era cidadão americano de origem alemã, tendo ingressado nas fileiras do exército dos EUA durante a II Guerra Mundial. Foi também professor de História e Política na prestigiada Universidade de Harvard.

O homem que serviu dois presidentes dos EUA morreu na sua casa no Estado do Connecticut, nos Estados Unidos.

Diplomaticamente ativo até ao final de vida, Kissinger esteve em julho deste ano em Pequim numa visita surpresa para se encontrar com o presidente chinês, Xi Jinping.

A relação complexa de Kissinger com a China foi, desde sempre, um dos marcos na carreira do mais celebrado dos diplomatas dos EUA. A aproximação dos EUA à China foi um tema que esteve sempre na agenda de Kissinger.

Foram de Kissinger, também, as difíceis negociações para a saída dos Estados Unidos no Vietname, depois da mais complexa guerra dos norte-americanos.

O acordo de cessar-fogo entre as forças de Washington, o então Vietname do Norte e a guerrilha comunista, apoiada por Hanói no sul vietnamita acabaria por lhe valer um controverso Nobel.

Envolvido em polémica foi também o seu apoio ao golpe que derrubou Salvador Allende, no Chile, em 1973.

Em 1975, terá sido Henry Kissinger e o presidente Ford que aprovaram a invasão da então colónia portuguesa de Timor-Leste pelos militares indonésios.

Kissinger e Portugal

Documentos do Departamento de Estado dos EUA, tornados públicos em 2014, revelariam que Kissinger seria um adepto de um golpe de estado de direita em Portugal durante o período revolucionário de 1975 e terá admitido mesmo fornecer armas ao chamado "grupo dos Nove".

Esta convicção terá saído de uma reunião realizada a 12 de agosto de 1975, entre Kissinger, o embaixador dos EUA em Lisboa, Frank Carlucci, e vários elementos do Departamento de Estado, incluindo William Hyland, diretor do Departamento de Informações e Pesquisa daquele organismo.

É nesta reunião, realizada no Departamento de Estado, em Washington, que Kissinger e Carlucci falam da hipótese de uma guerra civil em Portugal e da possibilidade dos EUA fornecerem armas a nomes relacionados com Mário Soares ou do Grupo dos Nove, formado por elementos moderados do Movimento das Forças Armadas, liderados por Melo Antunes.

Uma vida ativa até ao fim

Heinz Alfred Kissinger nasceu a 27 de maio de 1923, na cidade de Fürth, na Alemanha. "O jovem Heinz era retraído e estudioso, mas apaixonado por futebol - tanto que arriscou confrontos com nazis para assistir aos jogos", escreveu o jornal New York Times. No outono de 1938, acrescenta o diário, "faltando ainda um ano para a guerra", as autoridades nazis permitiram que a família do jovem Heinz deixasse a Alemanha. "Com poucos móveis e um único baú, os Kissingers embarcaram para Nova Iorque a bordo do transatlântico francês Ile de France. Heinz tinha 15 anos", revela.

Foram poucas as figuras na vida política dos EUA que se mantiveram tão influentes durante tanto tempo. Kissinger morre sem apagar as polémicas que envolveram a sua ativa vida politico-diplomática que durou um século e que mostrou uma invulgar lucidez até ao final com a participação em conferências, viagens e a edição de livros.

"A Guerra Fria foi mais perigosa", disse Henry Kissinger numa cerimónia pública em 2016, na Sociedade Histórica de Nova Iorque. "Ambos os lados estavam dispostos a iniciar uma guerra nuclear geral", disse então Mas, acrescentou o diplomata, "hoje é mais complexo". Talvez tivesse razão.

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