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MICRONOVELA

Herança de sangue Há heranças que não se escolhem.

Homem cego há 40 anos recupera parcialmente a visão após terapia inovadora

Proteínas de algas injetadas no olho apresentaram resultados promissores na recuperação da acuidade visual.

25 de maio de 2021 às 15:01

Um homem cego, de 58 anos, recuperou parcialmente a visão após o uso de proteínas de algas injetadas no olho, no âmbito de um estudo científico. O francês estava diagnosticado com retinite pigmentosa há 40 anos, uma doença genética que causa a perda de visão, e agora já consegue distinguir objetos que estejam próximos e orientar-se na rua, com recurso a óculos de estimulação.

O estudo foi publicado esta segunda feira na revista científica Nature Medicine e relata os progressos da visão de um homem tratado com a terapia optogénica, em que foram usadas proteínas de algas para controlar as células da parte interior do olho. Foi a primeira vez que esta técnica, que envolveu equipas americanas, suíças e francesas, teve sucesso.

Estes microrganismos, cientificamente chamados de 

rododopsinas de canal, são 

sensíveis à luz. Alteram o comportamento quando estimulados com iluminação para se mover em direção a esta e, por isso, mostraram resultados favoráveis quando injetados no olho do paciente que, inicialmente, apresentava acuidade visual limitada à perceção da luz.

Em declarações à BBC, o professor Botond Roska, um dos responsáveis pelo estudo da Universidade de Basel, disse que "as descobertas fornecem uma prova de que o uso da terapia optogenética para restaurar parcialmente a visão é possível."

Antes e depois de realizarem a injeção no paciente para estimular a regeneração das células destruídas, foram feitos exames oculares, exames gerais e eletrocardiogramas para avaliar a anatomia da retina em várias ocasiões e perceber se havia inflamação intraocular ou alguma adversidade.

Seguiram-se os testes para perceber a resposta das proteínas à estimulação da luz, com recurso a óculos de estimulação. Inicialmente o paciente não percebeu nenhuma alteração da visão, no entanto, sete meses depois do início do treino visual, o paciente começou a relatar sinais de melhoria visual com o uso dos óculos que se mantiveram.

Os testes incidiram sob três parâmetros: ambos os olhos abertos sem os óculos estimuladores da luz (binóculo natural); um dos olhos tapados e o outro aberto sem os óculos (monocular natural) e um olho tapado e o outro aberto com recurso ao estímulo dos óculos (monocular estimulado).

No primeiro teste o homem tinha que perceber, localizar e tocar num objeto colocado na superfície de uma mesa branca, a cerca de 60 centímetros de distância. O paciente só mostrou resultados positivos quando estava na condição de monocular estimulado, com um sucesso de 92% das tentativas. Esta taxa foi dependente do tamanho do objeto, sendo maior quando este tinha maiores dimensões. 

No segundo teste que incluiu perceber, contar e localizar mais do que um objeto, na condição monocular estimulada, o paciente teve uma taxa de sucesso de 63% quando se tratou da perceção e contagem. Na localização a taxa foi de 58%. 

Quando saiu à rua para dar um passeio, o paciente afirmou ver as faixas pedestres e a faixa rodoviária, inclusive contar as linhas brancas. No quotidiano também relatou distinguir objetos comuns como pratos, canecas, portas e corredores, mas apenas quando usava os óculos estimuladores de luz.

O estudo concluiu que a taxa de avaliações corretas foi consideravelmente maior em condições monoculares estimuladas (41%) do que binoculares e monoculares naturais (5,8%). Assim, é a primeira evidência científica de que a injeção da proteína de alga combinada com a terapia optogénica e o uso de óculos estimulantes de luz, consegue induzir a perceção visual que permitiu orientar o paciente, realizar a tarefa visual e alcançar o objeto.

A terapia optogenética é uma técnica que combina luz, genética e bioengenharia para estudar e ativar circuitos neuronais. Nas últimas décadas, tem apresentado avanços significativos que permitem identificar causas de doenças e indicar opções de cura. No entanto, a sua utilização em seres humanos ainda é restrita, mas promissora, uma vez que permite selecionar células específicas sem tocar nas outras que estejam em volta, ou seja, sem causar efeitos colaterais, em comparação com técnicas de eletroestimulação que são utilizadas atualmente.

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