Pelo menos dez crianças podem ter sido castradas por médicos de uma instituição católica na província holandesa de Gelderland na década de 50, do século passado. A medida terá sido justificada com a necessidade de as curar da homossexualidade e como pena por denunciarem abusos sexuais.
O estranho caso começou a ser desvendado com uma investigação de Joep Dohmen, do periódico NRC Handelsblad. O jornalista descobriu a história de Henk Heithuis, castrado em 1956, na altura com 20 anos, depois de ter denunciado à polícia abusos sexuais por parte de padres na casa de acolhimento em que vivia. Na altura, a maioridade só era atingida aos 21 anos.
O jovem acabou por morrer dois anos depois num acidente de viação. Mas o caso não desapareceu. Dohmen seguiu o rasto da história e descobriu que, apesar de dois clérigos terem sido condenados, Heithuis foi transferido para uma unidade psiquiátrica da Igreja, antes de ser transferido para o Hospital St. Joseph, em Vehgel. Terá sido, então, que o jovem alegadamente pediu para ser castrado.
Contudo, não foram encontrados quaisquer documentos com a assinatura do jovem a dar o seu consentimento. Fontes revelaram ao jornalista que esta técnica era usada para curar a homossexualidade e como castigo pelas denúncias de abusos sexuais.
A castração de Heithuis foi confirmada por um escultor holandês, Cornelius Rogge, que na altura conheceu o jovem e a sua história e denunciou o caso, mas sem quaisquer consequências.
Mas a história de Heithuis não é a única. A investigação de Dohmen descobriu que, pelo menos, mais nove pessoas que podem ter também sido castradas. “Há casos anónimos que já não podem ser confirmados. Ainda devem haver muitos outros, mas a questão é se aqueles miúdos, hoje idosos, vão querer contar as suas histórias”, advertiu o jornalista.
O caso ganhou um novo fôlego esta segunda-feira com a revelação de minutas de actas de reuniões da década de 50, que dão conta que inspectores do Governo não só tinham conhecimento das castrações, como estavam presentes quando eram discutidas. Os documentos revelam ainda que os familiares não eram informados do tratamento dado aos menores.
Há ainda evidências que o ex-primeiro-ministro Vic Marijnen, falecido em 1975, colaborou para encobrir os crimes. À data da castração, de Heithius, o governante era presidente da casa de acolhimento e terá usado influência para evitar que outros padres cumprissem penas por pedofilia.
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