O capitão Paulo Silvério comandou o 2.º destacamento da GNR em Nassíria, entre Março e Junho de 2004, e em Abril viveu o drama de ver dois dos seus militares feridos em combate. Um ano depois, recorda esse momento e faz o balanço do papel da força portuguesa no contingente multinacional.
Correio da Manhã – Um ano volvido desde a sua partida para o Iraque, o que recorda como mais marcante?
Capitão Silvério – O que me marcou mais foram incidentes passados nas situações de revolta que aconteceram. A experiência, nesse aspecto, para além de me ter enriquecido em termos profissionais tornou-me mais maduro. Recordo particularmente o momento em que chegou a informação de que elementos da GNR tinham sido feridos. Inicialmente referia-se que um dos feridos tinha sido atingido na cabeça. O tenente Quadrado estava a comandar a força portuguesa no local e tinha acabado de pedir apoio aéreo, um helicóptero, para dar apoio próximo. Estava sob fogo do adversário e eu só pensava em chegar ao local o mais rapidamente possível.
– Estava preparado para encontras situações de guerra aberta como a dessa noite?
– Nós tínhamos o ‘feedback’ do terreno pelo comandante do primeiro contingente e não tinha havido na província de Dikhar muitos ataques contra as forças da coligação. Embora nós preparemos sempre os militares para o pior, de facto não esperava viver os momentos que vivemos.
– Estava preparado para, se necessário, morrer no Iraque?
– Eu estava pronto sobretudo para defender os meus militares até ao limite. Quanto a eles, durante toda a missão um dos factores mais enriquecedores para mim foi a sua determinação. Felizmente não tivemos baixas, o que se deve à disciplina que foi incutida e, é claro, ao factor sorte. Mas posso dizer-lhe que um dos meus mestres em disciplina militar uma das primeiras coisas que me disse foi “a sorte é necessária, mas é preciso procurá-la”.
– Sentiu entre os seus homens um sentido de missão ou sobretudo um espírito mercenário?
– Senti, acima de tudo, que as graves situações que passámos tornaram o grupo mais coeso e que a determinação se foi acentuando ao longo da missão. Sei que temos militares, sobretudo em pelotões operacionais, com elevado sentido de missão, e verifiquei que outros, do pelotão de apoio, davam talvez mais importância ao factor económico. Mas eu, no mínimo uma vez por semana, tentava sentir o pulsar dos militares, e na fase final coloquei-lhes a seguinte questão: se fosse determinado virmos aqui, por exemplo, para ajudar as crianças, esquecendo a parte económica, viríamos, ou não? Nestas coisas nunca se consegue ter 100 por cento, mas verifiquei que teria um número muito significativo de militares que iriam lá pelo mesmo vencimento e só com a intenção de ajudar. Eles sabiam aquilo que tentámos fazer pela população e as pessoas mostravam-nos afecto. Quando começou a constar que vínhamos embora pediam para não o fazermos. ‘Vocês são verdadeiros amigos’, diziam. Estas coisas vão-nos realizando e incentivando.
– Sente que, apesar de Portugal ter enviado apenas 120 homens, valeu a pena estar lá?
– Não tenho dúvidas de que contribuímos para fazer alguma coisa em termos de segurança em Dikhar, que era a nossa área de responsabilidade.
– O contingente da GNR deveria ter continuado lá?
– São decisões que não nos competem. Agora, é certo que no Iraque a situação não está estabilizada e se não estão lá os portugueses tem de estar alguém para estabilizar a situação e não deixar que o pouco que se conseguiu se venha a deteriorar por completo.
– Falou da empatia dos portugueses com a população, mas isso não acontece com outros contingentes. O que está a falhar?
– Talvez seja a forma como são formados, o espírito que lhes é incutido. Nós vamos para lá tentar ajudar a outra parte e respeitar os hábitos culturais deles e as populações. Se determinadas forças não conseguem fazer chegar isto às pessoas, e isto consegue-se nos primeiros seis meses, por certo que não serão bem aceites. A nossa postura foi, aliás, elogiada pelos italianos, pelos americanos e pelos ingleses.
– O que pensa das retiradas de contingentes como o espanhol ou, agora, do anúncio da retirada italiana?
– Aquilo que se planeava fazer era uma transferência gradual para o poder iraquiano. Se agora chegarmos à conclusão que o poder iraquiano está a impor-se e as forças entenderem que devem retirar, pois devem retirar. No caso de Portugal, foi assumido um compromisso e ainda ficámos para lá do previsto mais três ou quatro meses. Mas quanto aos italianos, já na minha altura se falava que em Setembro de 2005 iriam começar a retirar.
– Voltava ao Iraque?
– Sim, voltava. Quando entrei para a Guarda tornei-me logo voluntário para cumprir todas as missões. Quando não for assim, estarei a mais e tenho de ir embora.
5 DE ABRIL DE 2004
Uma coluna militar da MSU, força multinacional sob comando italiano, é atacada cerca de 40 km a sul de Nassíria, junto a Suq al-Shuyuck. Um blindado da GNR seguia na coluna e, após informações desencontradas, confirma-se que três militares portugueses foram feridos. Horas depois, entre muita tensão e expectativa, a coluna militar regressa e verifica-se, com alívio, que os ferimentos são ligeiros.
17 DE MAIO DE 2004
Soldados da Corpo de Operações Especiais da GNR entram em combate em Nassíria depois de serem chamados a reforçar posições na antiga base italiana Libeccio, no centro da cidade, na altura sob ataque das milícias xiitas. Disparos de ‘rockets’ e armas automáticas fazem-se ouvir durante toda a tarde. Os combates fizeram cinco feridos entre os italaianos, um dos quais veio a falecer. Os portugueses saíram ilesos e regressaram de madrugada à base de Talil.
21 DE MAIO DE 2004
Informados pela população, os militares da GNR localizam e prendem seis iraquianos na posse de explosivos junto a Talil, base onde estão estacionadas as tropas da coligação ao serviço em Nassíria. De madrugada, a base tinha sido atingida por um número indetermiado de granadas de morteiro, que caíram junto ao acampamento coreano e holandês.
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