"O discurso do senhor presidente da Assembleia da República desvalorizou o trabalho que se tem feito ao longo de muitos anos para garantir a transparência e o funcionamento das instituições", referiu.
O deputado socialista Pedro Delgado Alves acusou este sábado o presidente do parlamento de prestar "um mau serviço" e de caricaturar o controlo de transparência, justificando ter virado as costas a Aguiar-Branco no final do discurso.
Pedro Delgado Alves falava à agência Lusa após a sessão solene do 25 de Abril de hoje no parlamento, na qual virou as costas em sinal de protesto no final do discurso do presidente da Assembleia da República, José Pedro Aguiar-Branco.
"O discurso do senhor presidente da Assembleia da República desvalorizou o trabalho que se tem feito ao longo de muitos anos para garantir a transparência e o funcionamento das instituições, caricaturou a forma como funciona o controlo de transparência, as incompatibilidades, as portas giratórias, algo que é exigido pela sociedade como uma forma de credibilizar o exercício de funções públicas, mistura coisas que são interesse público com interesse privado, prestou um mau serviço na intervenção que fez hoje", criticou.
De acordo com o deputado do PS, "nas sessões solenes não há espaço, normalmente, para protestos ou para coisas similares", tendo sido esta forma que encontrou de deixar a sua nota de desagrado.
"É sabido que tenho trabalhado muito nestes temas, se calhar levo a peito, de forma mais próxima, uma forma tão agressiva como o Presidente da Assembleia da República o fez, até jocosa que não correspondeu àquilo que devia ser a função do Presidente da Assembleia como guardião da instituição parlamentar e das instituições", acrescentou.
Pedro Delgado Alves saudou que o Presidente da República, António José Seguro, tenha tido a "oportunidade de sublinhar a importância que estes temas têm".
"Acho que, infelizmente, é sinal preocupante, de que também já temos visto de outros dirigentes políticos, que querem diminuir o escrutínio, diminuir os registos de interesses, diminuir a capacidade do cidadão de escrutinar a atividade política e, portanto, olhe, saiu assim", disse.
Questionado sobre se não temia que este virar de costas fosse considerado falta de respeito, o deputado do PS referiu que lhe foi transmitido que, depois de se ter levantado, "houve deputados de outros partidos que depois proferiram impropérios com recurso a jargão vernacular".
"Portanto, se eles não tiverem um processo disciplinar também acho estranho que uma pessoa apenas se levante e vire as costas, que isso seja motivador de protesto", respondeu.
Pedro Delgado Alves disse que irá aguardar, mas reiterou que escolheu "a única forma" de "não perturbar a cerimónia, mas que também permitiu deixar nota" sobre o que sentia, afirmando que não se arrepende.
"O Presidente da República acompanha estes temas há muito tempo, não saberia seguramente que o Presidente da Assembleia da República ia precisar de refutação, portanto acho que não tinha sido a intenção, ou seja, trá-lo-ia como parte da sua intervenção, mas forneceu o equilíbrio que a cerimónia necessitava e que o país precisava de ouvir, de que pelo menos na Presidência da República temos alguém que está atento a estes temas e que não deixará que haja rolos compressores a passar por cima da transparência", enfatizou.
O presidente da Assembleia da República criticou hoje a proliferação de legislação para limitar o exercício de cargos políticos, advertiu que os remédios populistas fecham a política e defendeu que o serviço público precisa dos melhores.
Uma intervenção em que criticou a legislação sobre incompatibilidades e impedimentos aplicadas aos titulares de cargos políticos, sobretudo de deputados, que foi aplaudida sobretudo pelas bancadas do PSD e Iniciativa Liberal, mas que mereceu o protesto do vice-presidente da bancada socialista Pedro Delgado Alves: Levantou-se de costas após o fim do discurso do presidente da Assembleia da República.
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