Ao longo de cinco anos, Carolina Mário viu a sua barriga aumentar sem imaginar que transportava um tumor em desenvolvimento.
Uma mulher de 68 anos foi submetida com sucesso à remoção de um tumor de 20 quilogramas no Hospital Central de Nampula, norte de Moçambique, após conviver durante cinco anos com uma massa abdominal que cresceu progressivamente.
Ao longo dos cinco anos, Carolina Mário, camponesa de Namapa, no distrito de Eráti, viu a sua barriga aumentar sem imaginar que transportava um tumor em desenvolvimento.
"Eu só conseguia ver a minha barriga a crescer. Não sabia o que era. Pensei que fosse uma doença qualquer", contou à Lusa.
Viúva e mãe de três filhos, Carolina subsistia da produção de amendoim, milho e mapira numa pequena machamba naquela província do norte do país. À medida que o volume abdominal aumentava, as dificuldades físicas agravaram-se, até deixar de conseguir trabalhar e garantir o sustento da família.
"Nunca imaginei que tivesse um tumor tão grande", desabafou, ainda a recuperar da cirurgia, realizada a 1 de julho.
A distância entre a sua comunidade e o Hospital Central de Nampula (HCN), aliada à escassez de recursos financeiros, atrasou a procura de assistência hospitalar. Durante esse período, a camponesa diz ter enfrentado comentários e atitudes discriminatórias devido ao crescimento anormal do abdómen.
"Passei muito mal. As pessoas falavam de mim por causa da barriga. Eu já não conseguia trabalhar como antes e isso deixava-me muito triste", relatou.
Depois de chegar ao HCN, Carolina foi submetida a vários exames para determinar a origem da massa abdominal, num caso que mobilizou especialistas de cirurgia geral e ginecologia.
O médico residente de cirurgia geral no HCN, Vanilton Acuna, explicou que o caso exigiu uma avaliação multidisciplinar antes da intervenção.
"Por tratar-se de uma mulher, houve uma grande discussão entre a cirurgia e a especialidade de ginecologia para perceber se a massa tinha origem cirúrgica ou ginecológica. Depois dos exames concluímos que se tratava de um caso da cirurgia geral", afirmou.
Segundo o cirurgião, a mulher foi devidamente preparada e informada dos riscos associados à operação.
"A paciente mostrou-se aberta, confiou na equipa e avançámos para uma cirurgia extremamente complexa", disse.
A intervenção durou mais de quatro horas e revelou um quadro clínico mais complicado do que inicialmente previsto.
"Foi necessário remover uma parte do estômago e uma porção do intestino grosso que estavam completamente aderidas ao tumor. Essa foi a fase mais delicada da cirurgia", explicou.
O caso surge numa altura em que o HCN regista um aumento significativo do número de cirurgias relacionadas com tumores.
Dados apresentados pelo serviço de cirurgia geral indicam que, durante todo o ano de 2025, foram realizadas 35 cirurgias eletivas por tumores, correspondendo a cerca de 16% das 207 intervenções efetuadas pela especialidade. Já nos primeiros seis meses de 2026, das 211 cirurgias eletivas realizadas pela cirurgia geral, 75 destinaram-se ao tratamento de tumores, representando aproximadamente 35% do total.
"Conseguimos notar um aumento do número de casos de tumores operados no nosso hospital. Comparando 2025 com 2026, houve um crescimento muito significativo", afirmou o médico.
Só na última semana, o HCN realizou 13 cirurgias eletivas em cirurgia geral, das quais seis relacionadas com doenças tumorais. Além de Carolina Mário, a equipa operou uma jovem de 26 anos portadora de um tumor do baço com cerca de 15 quilogramas.
Para Vanilton Acuna, o aumento dos casos não significa necessariamente uma maior incidência de tumores, mas poderá refletir uma maior procura dos serviços de saúde por parte da população.
"Parece-nos que antigamente muitos destes casos acabavam por permanecer nas comunidades, muitas vezes por questões supersticiosas. Hoje as pessoas procuram mais o hospital, mesmo que algumas ainda cheguem tarde", referiu.
O especialista explicou que as causas dos tumores variam consoante o órgão afetado e podem estar associadas a fatores genéticos, infeções virais, hábitos alimentares, consumo de álcool ou exposição prolongada a determinados fatores de risco.
"O importante é perceber que existem tumores que podem ser prevenidos ou diagnosticados precocemente através do rastreio, como acontece com o cancro da mama, da próstata e do colo do útero", sublinhou.
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