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Espaço funciona há meio século com recortes de notícias, perdidos e achados e até transmissões de futebol.
A montra de uma loja de fotografia no Mindelo, ilha cabo-verdiana de São Vicente, funciona há meio século como uma espécie de rede social ao vivo, com recortes de notícias, perdidos e achados e até transmissões de futebol.
Na origem está 'Djibla', a alcunha que Daniel Mascarenhas, hoje com 79 anos, recebeu do irmão, 20 meses mais velho. "Hoje sou mobília do Mindelo", conta, em entrevista à Lusa.
Ainda jovem, preparava-se para estudar medicina em Portugal, mas o início da guerra colonial levou-o para Angola, onde deu os primeiros passos na fotografia, como militar. Acabou por tornar-se fotógrafo e em 1967 abriu uma "casa de fotografia" no Mindelo. A "Foto Djibla" é o centro de tudo e fez esquecer a carreira na medicina, que acabou por ser seguida pela filha.
"Há umas coisas que compensam as outras", diz.
A história de 'Djibla' remonta à abertura da loja em que no final da década de sessenta fazia as fotografias de identificação "e as de recordação", sobretudo para os emigrantes acompanharem à distância os familiares, além de casamentos e "outros acontecimentos" da ilha de São Vicente.
Incêndios, acidentes e outras tragédias também tinham direito a cobertura fotográfica.
"Era chamado para tudo. E punha as fotos na montra. Habituei o pessoal a vir cá ver o que tinha acontecido, com as fotografias. É como se diz, uma fotografia vale mais que mil palavras", brinca.
Na década de setenta, além das fotos dos "acontecimentos" locais, antecipando em décadas os habituais 'posts' das atuais redes sociais, a montra da loja de 'Djibla' era já preenchida, também, com recortes de jornal, notícias, avisos e outros artigos que concentravam a atenção da população local.
"Até envelopes fechados, com novidades, chegavam pelo correio. E eu punha na montra", explica o antigo fotógrafo.
Isaltino Lima, serralheiro de 39 anos, confirma isso e conta que não passa um dia sem espreitar as novidades na montra de 'Djibla': "Passo sempre aqui para ver, para saber das novidades".
Entretanto, há vários anos que o negócio da loja, e da ótica que tem na porta ao lado, passou para a gestão dos filhos de 'Djibla'.
"Atualmente limito-me a retocar as fotografias no sistema Photoshop [programa de computador] e vou estando lá na loja", explica.
Com o passar dos anos, a montra passou a ser também o ponto de referência dos perdidos e achados da ilha. Aquando da visita da Lusa, tinha, entre outros, óculos encontrados no mar, chaves, um sapato de criança e duas dentaduras.
"Mas uma tem só um dente. Alguém apareceu para levar essa, mas não lhe serviu muito bem Passado uns dias veio trazer", conta, divertido.
Num tom mais sério, admite que o que faz é uma espécie de serviço público, pelo qual nada cobra e aonde todos vão para deixar o que encontraram ou perguntar pelo que perderam: "Tudo tem a data, o local onde foi encontrado e por quem. Se depois quiserem dar alguma coisa a quem encontrou e veio aqui deixar, é lá com eles. Mas eu fico é satisfeito sempre que as coisas são entregues aos donos".
Carlos Duarte, reformado de 63 anos, garante o mesmo, logo após espreitar a montra para se atualizar. É uma espécie de rede social "à moda antiga".
"Porque não é todo o mundo que tem Internet em casa e que tem as tais redes sociais", explica, assumindo que quando perde alguma coisa já sabe onde vai. "Isto é um serviço público e de interesse público", conta.
Em plenos anos 1980, ainda sem televisão em Cabo Verde, 'Djibla' pediu ajuda a um técnico francês e instalou no topo do monte da ilha um retransmissor do sinal das televisões das Canárias (Espanha) e do Senegal.
Contudo, como poucos tinham televisão no Mindelo, sempre que havia transmissão de futebol, colocava um aparelho na montra.
Era "enchente garantida" na rua de São João. Pouco tempo depois, já com a rua fechada "em dia de bola", passaram a ser duas televisões, uma para cada lado.
"Ao ponto de o comandante da polícia destacar um agente para ficar aqui e não permitir que os carros passassem. Durante alguns anos, sempre que havia futebol, eu tinha a rua cheia", recorda.
A chegada do sinal oficial de televisão à ilha de São Vicente, vários anos depois, levou-o a retirar as televisões da montra.
"Mas tenho encontrado pessoas que ainda hoje me dizem que a primeira vez que viram televisão foi na minha montra", afirma Daniel Mascarenhas.
Tal qual uma rede social, a montra apresenta piadas, brincadeiras, avisos, recortes e outras informações, que são constantemente atualizados. Ainda assim, há um que persiste, com data de 01 de novembro de 1989.
Trata-se de um recorte do extinto Jornal de Notícias, com a pergunta: "Quem matou Renato Cardoso". É o único que até hoje não saiu da montra e recorda a história do músico, compositor e político do Mindelo, que chegou a ser conselheiro do primeiro-ministro e secretário da Administração Pública em Cabo Verde. Foi assassinado na cidade da Praia, em 29 de setembro de 1989.
O crime completa em setembro 30 anos, sem explicação.
"A pessoa que cometeu o crime devia ter na altura entre 25 a 30 anos. Chega uma idade que vai querer contar a história. Talvez nessa altura terei que tirar aquela notícia e colocar a fotografia do assassino", afirma, assumindo-se admirador confesso do seu amigo Renato Cardoso.
Tal como um 'post' de uma rede social que milhares compartilham, o recorte da notícia sobre o homicídio daquele promissor político cabo-verdiano, sem qualquer explicação oficial até hoje, persiste na rede social que é a montra de 'Djilba' e na vida de Cabo Verde.
"Não sei se foi passional, como dizem, ou se foi político. Se eu viver mais uns anos ainda aparece", afirma, enquanto prepara os destaques que vão ocupar a montra no dia seguinte.
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