João Pedro Cravid admitiu que "as Forças Armadas de São Tomé e Príncipe atravessam neste momento um momento delicado por causa dos acontecimentos do dia 25 de novembro".
O novo Chefe do Estado-Maior das Forças Armadas são-tomense afirmou hoje que "há necessidade urgente" de reformas para erguer a corporação, abalada após o ataque ao quartel do exército e a morte de quatro civis.
"Quero também vos dizer que haverá reformas nas Forças Armadas, vamos mudar a forma de pensar, vamos mudar a formar de agir, vamos mudar a forma de estar, porque há necessidade urgente dessas reformas e brevemente algumas decisões serão tomas ainda nessa semana", declarou João Pedro Cravid, após a sua primeira visita ao quartel-general das Forças Armadas de São Tomé e Príncipe (FASTP).
O chefe do Estado-Maior das FASTP, que assumiu as funções na segunda-feira, admitiu que "as Forças Armadas de São Tomé e Príncipe atravessam neste momento um momento delicado por causa dos acontecimentos do dia 25 de novembro".
Na sequência de um ataque ao quartel do Morro em 25 de novembro, quatro pessoas morreram em circunstâncias que estão sob investigação, e 16 foram detidas, incluindo 12 militares, uma ação condenada pela comunidade internacional.
Entre os mortos está o antigo oficial do 'batalhão Búfalo' Arlécio Costa, condenado em 2009 por tentativa de golpe de Estado, e apontado como suspeito de ser um dos mandantes do ataque juntamente com o ex-presidente da Assembleia Nacional Delfim Neves -- ambos detidos pelos militares nas suas respetivas casas.
Esta quarta-feira foram divulgados nas redes sociais vídeos que mostram um detido -- que viria a morrer --, deitado no chão, ensanguentado e com as mãos amarradas atrás das costas, a ser agredido por um militar com um pau, enquanto vários outros militares assistiam. Outras imagens mostram detidos deitados ou ajoelhados no terreiro do quartel, com as mãos amarradas e com ferimentos.
"Esses acontecimentos abalaram a nossa instituição e consequentemente o país, mas nós temos que erguer a cabeça e seguir em frente [...] a investigação está a correr os seus trâmites para o apuramento da verdade, por outro lado nós vamos seguir em frente para cumprir a nossa missão, que é garantir a defesa e segurança deste país", declarou o brigadeiro, João Pedro Cravid.
O novo chefe do Estado Maior das FASTP pediu à corporação militar para "fazer de tudo para que já não volte a acontecer o que aconteceu no dia 25 de novembro" e prometeu liderança para imprimir "mais união, mais disciplina e mais trabalho".
"Conto com todos, mas também estarei atento com todos", declarou.
O brigadeiro visitou também as instalações do quartel-general das FASTP e disse ter constatado que "a situação é degradante e muito precária", prometendo todo fazer para mudar a situação para que os militares "possam ter algumas condições mínimas para trabalhar e para viver".
João Pedro Cravid substituiu no cargo o brigadeiro Olinto Paquete que se demitiu afirmando ter sido "informado com dados falsos" e reconheceu ter prestado "informações falsas à nação" sobre a morte dos quatro detidos, que tinha justificado antes com ferimentos causados por uma explosão, no caso dos três assaltantes, e, no caso do suposto mandante do ataque Arlécio Costa - detido após o ataque pelos militares - por se ter "atirado da viatura".
Na carta de demissão enviada ao Presidente são-tomense Carlos Vila Nova, Olinto Paquete denunciou "atos de traição" e condenou os "factos horrorosos" que envolveram a morte de quatro detidos após um ataque ao quartel-general militar.
Num comunicado datado de sábado, o Movimento de Libertação de São Tomé e Príncipe/Partido Social Democrática (MLSTP/PSD), maior partido da oposição, considerou que, depois do pedido de demissão do então chefe do Estado-Maior, o brigadeiro Olinto Paquete, na quinta-feira, "a não exoneração do resto da cadeia de comando revela sinais perturbadores e confirmam que um dos objetivos desse plano, era a destituição do brigadeiro-general".
Portugal enviou, a pedido de São Tomé, uma equipa de investigadores e peritos da Polícia Judiciária e uma médica perita em patologia forense, que está a colaborar com as autoridades judiciárias são-tomenses nas investigações.
Uma missão do Alto Comissariado para os Direitos Humanos da ONU chega na próxima semana a São Tomé e Príncipe, na sequência de maus-tratos e morte de quatro detidos sob custódia dos militares, disse à Lusa fonte diplomática.
O comissário dos Assuntos Políticos, Paz e Segurança da CEEAC, Banté Magaral, está em São Tomé a liderar a pedido das autoridades são-tomenses para recolher informações sobre a volta dos acontecimentos de 25 de novembro.
O responsável já teve encontros com o primeiro-ministro e com o Presidente da República, que mostraram total disponibilidade para colaborar, bem como total abertura para que a equipa da CEEAC realize todas as diligências que entender como adequadas, disse à Lusa fonte diplomática. A ONU está a prestar apoio à CEEAC, que não tem escritório em São Tomé.
Na agenda da equipa da CEEACA, estão previstos encontro com PGR, militares, polícia, partidos políticos, a ministra da Justiça, o ministro da Defesa, a sociedade civil, ativistas dos direitos humanos, familiares dos quatro mortos, detidos, e outras individualidades.
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