O Irão bloqueia há vários meses o estreito de Ormuz, por onde normalmente transita um terço dos fertilizantes mundiais.
O chefe do grupo de trabalho da ONU para facilitar o tráfego de matérias-primas através do estreito de Ormuz alertou esta segunda-feira que o bloqueio do transporte de fertilizantes pode provocar dentro de algumas semanas uma "grave crise humanitária".
"Temos algumas semanas para evitar o que será provavelmente uma grave crise humanitária. Podemos assistir a uma crise que mergulhará mais 45 milhões de pessoas na fome", afirmou o português Jorge Moreira da Silva numa entrevista à agência de notícias France-Presse (AFP).
O secretário-geral da ONU, António Guterres, criou em março um grupo de trabalho, liderado pelo diretor-executivo do Gabinete das Nações Unidas para os Serviços de Apoio a Projetos (UNOPS), Jorge Moreira da Silva, com o objetivo de implementar um mecanismo que permita a passagem de fertilizantes e matérias-primas relacionadas, tais como amoníaco, enxofre e ureia.
As exportações que habitualmente transitam por esta passagem estratégica do comércio marítimo mundial destinam-se geralmente ao Brasil, à China, à Índia e ao continente africano.
Jorge Moreira da Silva afirmou ter contactado mais de 100 países para angariar, nomeadamente, o apoio dos Estados-Membros da ONU a este mecanismo.
No entanto, as partes envolvidas no conflito --- Estados Unidos, Irão e países do Golfo --- ainda não estão convencidas.
"O problema é que a época de sementeira não espera", sublinhou Jorge Moreira da Silva, uma vez que algumas sementeiras terminam dentro de algumas semanas nos países africanos.
O português, que foi nomeado diretor-executivo do UNOPS em março de 2023, estima que a passagem de cinco navios carregados com fertilizantes e matérias-primas relacionadas por dia permitiria evitar uma crise para os agricultores.
"É uma questão de tempo. Se não atacarmos rapidamente a origem da crise, teremos de gerir as consequências com ajuda humanitária", continuou.
Em caso de acordo, o mecanismo poderia estar operacional em sete dias, afirmou o responsável da ONU.
Mas mesmo que o estreito de Ormuz reabrisse imediatamente, seriam necessários, segundo o representante, três a quatro meses para um regresso à normalidade.
Apesar de os preços dos alimentos ainda não terem disparado, Moreira da Silva assinalou um "forte aumento" do custo dos fertilizantes que, de acordo com os especialistas, provocará automaticamente uma queda na produtividade agrícola, seguida de uma subida vertiginosa dos preços dos alimentos.
"Não podemos hesitar sobre o que é possível e urgente: permitir a passagem de fertilizantes através do estreito e, assim, minimizar o risco de uma grave insegurança alimentar mundial", insistiu.
O Irão bloqueia há vários meses o estreito de Ormuz, por onde normalmente transita um terço dos fertilizantes mundiais, em retaliação à guerra desencadeada pelos Estados Unidos e por Israel a 28 de fevereiro.
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