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Padre brasileiro diz que menina de 10 anos que engravidou após violação do tio não denunciou abusos porque "gostava"

Perante a enorme vaga de indignação nas redes sociais, o religioso reconheceu a autoria das mensagens e pediu desculpa.
Domingos Grilo Serrinha e correspondente no Brasil 21 de Agosto de 2020 às 18:48
Padre
Padre FOTO: Getty Images

Um padre da pequena cidade de Carlinda, no interior do estado brasileiro de Mato Grosso, chocou os seus paroquianos ao insinuar na internet que uma menina de 10 anos que engravidou do próprio tio, que a violava desde os seis, se demorou tanto para denunciar as agressões sexuais é porque gostava do sexo que fazia com o familiar, preso esta semana. Perante a enorme vaga de indignação que as suas palavras provocaram nas redes sociais, o religioso, Ramiro Perotto, emitiu um comunicado, reconhecendo a autoria das mensagens e pedindo desculpa "a quem se tiver sentido ofendido" por ele ter acusado a criança de gostar das brutais agressões sexuais que sofria.

"Vão defender isso em outro lugar. Vocês acreditam que a menina é inocente? Acreditam em Pai Natal também? Seis anos, violada por quatro anos e não disse nada... Claro que estava a gostar também. Gosta de "dar" (gíria em baixo calão que significa gostar de fazer sexo), então que assuma as consequências. Ela compactuava com tudo e agora quer aparecer como inocente...", escreveu o sacerdote numa troca de mensagens sobre o caso, ocorrido no estado de Espírito Santo e que ganhou dimensões nacionais dias atrás com a polémica provocada pela autorização da justiça para que a menina interrompesse a gravidez, facto que enfureceu sectores ligados ao movimento evangélico, grupos ultra-radicais próximos ao presidente Jair Bolsonaro e também alguns membros da Igreja Católica mais conservadores.

As palavras do padre de Carlinda foram imediatamente criticadas por uma legião de internautas, mesmo muitos deles contrários ao aborto, mas que consideraram que um religioso não poderia ter-se manifestado daquela forma, culpando a vítima pelas agressões que sofreu calada durante anos com medo das ameaças que o tio lhe fazia. A Arquidiocese de Sinop, também no estado de Mato Grosso, a que responde a paróquia de Carlinda, até esta sexta-feira não se tinha manifestado sobre as palavras do sacerdote, nem respondido aos pedidos para que ele fosse afastado ou, ao menos, repreendido.

O caso da menina violada pelo tio durante quatro anos foi descoberto no passado dia 8, quando a criança, queixando-se de dores abdominais, procurou um hospital na cidade onde vivia, São Mateus, no interior do estado de Espírito Santo, e os médicos descobriram que ela estava grávida de quase cinco meses. No hospital, a menina contou que um tio, um homem de 33 anos preso por tráfico de droga mas a quem a justiça autorizou a cumprir a pena em casa, a violava desde os seis anos e ameaçava matar-lhe o avô se ela contasse alguma coisa a alguém.

O juiz da Vara da Infância e Juventude de São Mateus, António Moreira Fernandes, autorizou a menina a interromper a gravidez devido ao facto desta ser decorrente de um crime sexual e de haver risco de vida para a menor, mas a decisão gerou uma enorme batalha religiosa e ética. Médicos do Espírito Santo recusaram fazer o aborto autorizado pela justiça e a menina teve de viajar para outro estado brasileiro, Pernambuco, onde o procedimento foi feito depois de grupos de extrema-direita comandados pela ativista radical Sara Winter, líder de um grupo armado de apoio ao presidente Jair Bolsonaro, terem tentado invadir o hospital para impedir o aborto.

Dois dias depois do procedimento no hospital especializado em Recife, capital de Pernambuco, a menina e a avó, que a criou por o pai estar preso e a mãe ter morrido, deixaram a unidade de saúde carregando uma verdadeira montanha de brinquedos, chocolates e livros oferecidos por desconhecidos de todo o Brasil que se emocionaram com a dramática história. A menina e a avó foram para local não informado, e vão receber novas identidades, uma casa totalmente mobilada e apoio financeiro para começarem uma vida diferente.
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