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Profissionais húngaros admitem que ser jornalista é "muito difícil" num país com 80% dos meios controlados

Desde que regressou ao poder em 2010, o primeiro-ministro ultraconservador, Viktor Orbán, "não deixou de minar o pluralismo mediático e a independência", afirmam os RSF.

11 de abril de 2026 às 12:12

Jornalistas de meios de comunicação independentes húngaros admitem que exercer a profissão "é muito difícil", num país onde 80% da imprensa é dominada pelo Fidesz, partido no poder, segundo a organização Repórteres sem Fronteiras (RSF).

"À primeira vista, a imprensa húngara é absolutamente livre. Por isso, é possível escrever o que se quiser sem repressão. Mas os media críticos [do Governo] têm alguns problemas", descreveu à Lusa Péter Magyari, jornalista de investigação premiado do meio online Válasz.

Como jornalista, relatou, "é realmente difícil obter qualquer informação, não só do Governo, mas de qualquer tipo de instituição relacionada com o Estado".

"Nunca respondem aos media críticos nem sequer os convidam para uma conferência de imprensa", prosseguiu.

Magyari denunciou "um fenómeno muito novo" que classificou como "uma comunicação paranoica".

"Com a guerra na Ucrânia, se perguntarmos qualquer coisa, e refiro-me a qualquer um dos meios de comunicação críticos, normalmente recebemos a resposta: 'não respondemos porque és um agente estrangeiro, estás a trabalhar para Bruxelas, estás a trabalhar para a Ucrânia ou algo do género'", disse.

Desde que regressou ao poder em 2010 -- após um mandato entre 1998 e 2002 -- o primeiro-ministro ultraconservador, Viktor Orbán, "não deixou de minar o pluralismo mediático e a independência", afirmam os RSF.

"Depois de a radiodifusão pública ter sido transformada numa máquina de propaganda, vários meios de comunicação privados foram tomados ou silenciados. Graças a manobras políticas e económicas e à compra de meios de comunicação por oligarcas com ligações próximas ao Fidesz, o partido no poder controla agora 80% dos meios de comunicação do país", adiantam.

Segundo a organização, "embora os jornalistas húngaros não sejam -- ou sejam apenas raramente -- sujeitos a agressões físicas ou interrogatórios policiais injustificados, o Estado húngaro é o único membro da União Europeia que monitorizou arbitrariamente jornalistas usando o 'software' Pegasus".

Além disso, refere, "no contexto de campanhas de difamação, jornalistas críticos do governo são assediados online por apoiantes do partido no poder".

Ser jornalista na Hungria "é uma aventura", disse à Lusa Mercédesz Gyükeri, jornalista no hvg, um semanário cujo site é uma das fontes de informação mais lidas do país.

"Percebo bem os muitos colegas que deixaram a profissão por razões mentais ou materiais. Os meios pró-Fidesz recebem sempre muito dinheiro, e claro, isso significa redações com mais gente, salários mais altos, são eles que recebem informações do Governo", descreveu.

"É bastante raro ter alguma resposta dos ministérios" e Viktor Orbán não dá uma entrevista a um meio independente há décadas, comentou.

"Isto é trágico, há jornalistas que pensam que isso é normal porque nunca viram outra coisa", lamentou a jornalista.

Sobre a liberdade de imprensa nos 16 anos consecutivos de governação do Fidezs, Mercédesz Gyükeri identifica três momentos importantes.

A lei mediática de 2011, a transformação da imprensa pública em meio de propaganda, e também a declaração de Orbán, em 2013, "sobre a importância de ter a maioria de alguns setores estratégicos na mão húngara".

"Entre a segurança, energia, comércio, Orbán mencionou a imprensa. Mão húngara quer dizer oligarcas", explicou.

De acordo com os RSF, o mercado "está altamente concentrado na Fundação KESMA, servindo o Governo, tal como os meios de comunicação públicos, e reunindo cerca de 500 organizações mediáticas nacionais e locais".

A concentração da imprensa em torno do círculo de Viktor Orbán "significa que a mensagem que a maioria do público recebe é precisamente o que interessa ao Fidesz e ao Governo", afirmou Péter Magyari.

Apesar disso, ressalvou o repórter, a compra de órgãos de comunicação "tem um efeito limitado".

Por um lado, em vários casos, jornalistas que saíram desses meios criaram novos órgãos.

"Tiveram problemas económicos. Não é tão fácil criar algo novo, mas a maioria são histórias de sucesso. E se alguém quiser encontrar notícias independentes na Hungria, é fácil", salientou Magyari.

No mesmo sentido, os RSF indicam que "os media independentes mantêm posições fortes noutros segmentos do mercado nacional".

Segundo Magyari, o Fidesz "gastou uma enorme quantia de dinheiro e fez um enorme esforço para possuir toda a imprensa húngara", mas "não foi bem-sucedido, porque não consegue controlar a internet".

A governação de Viktor Orbán pode chegar ao fim nas eleições legislativas deste domingo, quando a maioria das sondagens independentes dão a vitória a Péter Magyar, um dissidente do Fidesz que lidera o partido conservador Tisza.

O opositor prometeu que, se se tornar primeiro-ministro, procurará "restaurar ou reforçar a liberdade dos media".

"O que pode mudar se o Tisza ganhar? Boa pergunta", disse Mercédesz Gyükeri.

Até agora, a comunicação do partido opositor tem sido "mais transparente do que a do Fidesz e do governo, centralizada ao máximo".

"Mas destruir aquele mecanismo enorme vai ser muito difícil", admitiu.

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