Terapia visa "desenvolvimento da espontaneidade e criatividade" dos indivíduos para lidar com determinadas situações.
Em véspera de se assinalar o centenário da primeira sessão de psicodrama, especialistas destacam a importância desta terapia individual em grupo que, através da ação, visa o "desenvolvimento da espontaneidade e criatividade" dos indivíduos para lidar com determinadas situações.
"O psicodrama é uma psicoterapia que trata o indivíduo dentro de um grupo. O nosso objetivo é tentar ajudar as pessoas a desenvolver a sua espontaneidade e criatividade em contexto grupal no momento, no aqui e agora", afirmou hoje, em declarações à agência Lusa, Miguel Vasconcelos, presidente da Sociedade Portuguesa de Psicodrama (SPP).
Em 01 de abril de 1921, Jacob Levy Moreno, um contemporâneo de Freud, viria a fundar na Comedy House, em Viena, o psicodrama: uma terapia individual em grupo que "inclui a ação", isto é, a criação, através da dramatização, de uma situação que "não se limita ao presente".
A inclusão da ação no psicodrama é "a grande diferença" desta para outras terapias, afirmou o psiquiatra, acrescentando que em cada sessão, os indivíduos do grupo -- que não se conhecem do contexto social - se "posicionam face a várias situações que são criadas".
Uma sessão de psicodrama demora habitualmente 90 minutos e é composta por três fases: o aquecimento, a dramatização (onde existe um estrado que representa um palco) e os comentários (onde se "produz o objetivo terapêutico").
Na dramatização e exposição de determinadas situações passadas, presentes ou futuras no "palco", os indivíduos tanto são "protagonistas" da sua própria história, como se colocam no "papel dos outros".
"Quando está no outro papel, a pessoa está a ver-se de fora e está a sentir o que faz sentir os outros quando fala. Colocarmos a pessoa no lugar do outro tem uma riqueza muito grande", acrescentou Miguel Vasconcelos, salientando que as técnicas usadas permitem ao indivíduo "um maior conhecimento de si e do seu contexto social".
Também em declarações à agência Lusa, José Teixeira Sousa, psiquiatra e um dos clínicos que, em 1986, fundou a Sociedade Portuguesa de Psicodrama, alertou para a necessidade de se "distinguir psicodrama de teatro".
"No teatro grego havia a comédia, a tragédia e o drama. O drama era uma peça com grande intensidade emocional, mas que acabava bem. A tragédia acabava mal. No psicodrama nós representamos os nossos próprios papéis, no teatro estamos sempre a representar os papeis dos outros", referiu.
O primeiro contacto que José Teixeira de Sousa teve com o psicodrama foi em 1980, num congresso em Salvador da Baía (Brasil) organizado por Alfredo Correia Soeiro, que a partir dessa data viria a formar profissionais nesta psicoterapêutica em Portugal e se tornaria sócio fundador da SPP.
Recordando os princípios 'morenianos', José Teixeira de Sousa salientou que "a cura" para determinados eventos passa por desenvolver a espontaneidade: "Uma resposta adequada, criativa e original".
"A espontaneidade é uma resposta nova às coisas antigas e uma resposta adequada a coisas recentes. O Moreno acreditava que muitos dos nossos problemas resultavam da coação social, que nos impedia de sermos livres e espontâneos", referiu o psiquiatra, que ainda dá consultas na primeira sala de psicodrama do país.
Com a pandemia, e à semelhança de tantas outras terapêuticas, o psicodrama, que hoje está implementando em consultórios, mas também em serviços hospitalares, passou a ter como palco as plataformas 'online'.
"Não é a mesma coisa. Não tem o mesmo valor do que quando conseguimos fazer presencialmente. No 'online' temos de recorrer a outras técnicas que só usávamos excecionalmente", afirmou José Teixeira de Sousa.
A procura por este tipo de terapias "tem aumentado", sobretudo por "parte dos casais" e de pessoas com perturbações de ansiedade e depressão, ainda que "muitas destas perturbações psicopatológicas só apareçam, na maior parte das vezes, seis meses depois dos eventos".
Para Miguel Vasconcelos, o psicodrama pode ser "um bom instrumento", especialmente, "nestas alturas de crise e de catástrofe".
"O psicodrama é um bom instrumento, sobretudo nestas alturas, porque nós podemos dramatizar situações que não chegaram a acontecer como por exemplo o confronto com a morte e isso dá-nos conhecimento, não só teórico", afirmou.
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