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Herança de sangue Há heranças que não se escolhem.

Psiquiatra atropela multidão em mercado de Natal na Alemanha. Suspeito era islamofóbico

Atropelamento em mercado de Natal faz cinco mortos. Médico saudita, de 50 anos, é defensor dos refugiados “anti-Islão”.

22 de dezembro de 2024 às 01:30

Pelo menos cinco pessoas morreram, incluindo uma criança de nove anos, e cerca de 200 ficaram feridas, 41 das quais em estado grave, na sequência de um atropelamento intencional, na noite de sexta-feira, num mercado de Natal, em Magdeburgo, no Leste da Alemanha. Dezenas de pessoas foram arrastadas pelo carro que só parou ao fim de 400 metros.

O condutor, que agiu sozinho, foi detido no local quando tentava fazer marcha-atrás. Taleb al-Abdulmohsen, de 50 anos, natural da Arábia Saudita, morava em Bernburg, a cerca de 50 quilómetros do local do acidente e é psiquiatra.

Chegou à Alemanha em 2006, como estudante, e obteve asilo em julho de 2016, depois de ter sido ameaçado de morte por se ter afastado do Islão.

A ministra do Interior, Nancy Faeser, disse que o suspeito era islamofóbico sem dar mais pormenores sobre as filiações políticas do homem.

Segundo a imprensa alemã, Taleb considera-se um ex-muçulmano e opositor do Islão. “Pessoas como eu, que têm antecedentes islâmicos mas já não são crentes, não são recebidas com compreensão nem tolerância pelos muçulmanos aqui. Sou o crítico mais agressivo da história do Islão”, disse o homem numa entrevista ao jornal alemão ‘FAZ’, em 2019.

Era também um ativista a favor das mulheres sauditas. Informava e aconselhava mulheres sauditas sobre as possibilidades de fugirem do país e tinha uma página na Internet com informações sobre o sistema alemão de asilo. Numa entrevista ao ‘Frankfurter Rundschau’, em 2009, contou que muitas sauditas o procuraram, em busca de proteção. Nas redes sociais, mostrou simpatia pela Alternativa para a Alemanha (AfD), de extrema-direita, porque dizia ser o único partido que lutava contra o Islão na Alemanha.

Há um ano, as autoridades receberam uma queixa contra Taleb, devido a declarações no Twitter em que dizia que a Alemanha iria “pagar um preço” pela alegada perseguição de refugiados da Arábia Saudita. Numa entrevista difundida há uma semana, num blog islamofóbico dos EUA, afirmava que a Alemanha tinha uma operação secreta para perseguir ex-muçulmanos sauditas em todo o Mundo e, ao mesmo tempo, concedia asilo a jihadistas sírios. O homem prometeu massacrar "20 alemães" no ano passado, de acordo com o Daily Mail.

"Temos de nos unir contra o ódio”

O chanceler alemão visitou este sábado Magdeburgo para prestar homenagem às vítimas do atropelamento e prometeu agir contra os “que querem semear o ódio”.

“Temos de perceber exatamente quem é o autor do crime, o que fez e porquê, para podermos reagir com as necessárias consequências penais. E é isso que vamos fazer”, prometeu Olaf Scholz. “Recebi homenagens a nível internacional e, enquanto Alemanha, não estamos sós. A minha simpatia e solidariedade vão para todos os familiares das vítimas e para a cidade de Magdeburgo, que está de luto”, acrescentou.

Portugal também condenou o atropelamento mortal. Tanto o Presidente da República como o primeiro-ministro expressaram solidariedade para com os alemães. “Expresso solidariedade ao povo alemão e ao chanceler Scholz. Sentidas condolências às famílias das vítimas e votos de recuperação aos feridos”, disse Luís Montenegro.

Também António Costa, na qualidade de presidente do Conselho Europeu, manifestou a sua solidariedade. “Estou chocado com as notícias horríveis de Magdeburgo. Os meus pensamentos estão com as vítimas e as suas famílias”, disse. Acrescentou, ainda, que “a União Europeia está solidária com a Alemanha”.

Um dia após a tragédia, centenas de pessoas homenagearam as vítimas deixando flores, velas e peluches num memorial improvisado perto do mercado de Natal onde tudo aconteceu. O ataque levou a que várias outras cidades alemãs cancelassem os seus mercados de Natal durante o fim de semana por precaução, mas também por solidariedade. Já na Áustria, as autoridades decidiram reforçar as medidas de segurança nos mercados de Natal de Viena, e também de outras cidades.

Suspeito entrou por zona reservada a ambulâncias

Taleb al-Abdulmohsen entrou no mercado de Natal por uma entrada sem baias de proteção reservada para ambulâncias e outros veículos de emergência. Ainda conduziu durante três minutos até ser parado pela polícia. Foi detido no local, logo após o incidente, sem ter oferecido qualquer resistência. 

Tobias Rausch, político da AfD, assistiu ao ataque

Tobias Rausch, membro do partido de extrema-direita Alternativa para a Alemanha (AfD), estava no mercado de Natal e testemunhou o atropelamento. “O pânico que se instalou foi aterrador, as pessoas caíram. De repente, ouvimos um barulho estridente, houve gritos, o pânico instalou-se”, contou o político alemão. 

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