Quem decidiu tornar público o relatório foi outro juiz do Supremo Tribunal Federal, ao sentir-se ameaçado após pressões internas e externas para não avançar com as investigações.
A divulgação, esta terça-feira, de um relatório sigiloso da Polícia Federal (PF) que liga o temido juiz Alexandre de Moraes a um banqueiro preso por corrupção, suborno a autoridades e burlas gigantescas no mercado financeiro detonou uma crise sem precedentes no Supremo Tribunal Federal (STF) brasileiro. Quem decidiu tornar público o relatório foi outro juiz do STF, André Mendonça, relator do caso, ao sentir-se ameaçado após pressões internas e externas para não avançar com as investigações.
Ao longo de 218 páginas verdadeiramente explosivas, o relatório da PF reproduz mensagens trocadas entre o banqueiro Daniel Vorcaro, dono do Banco Master, liquidado no fim do ano passado pelo Banco Central, e o juiz do STF, conhecido pela sua extrema dureza nos julgamentos que comanda, nomeadamente o que condenou a dezenas de anos de prisão no ano passado o ex-presidente Jair Bolsonaro e outros acusados de golpe de Estado. Nas mensagens, de reprodução única, que desaparecem após seremvisualizadas mas que a PF conseguiu recuperar, Vorcaro aconselha-se com o magistrado sobre decisões que precisa tomar nos seus negócios ilícitos, combina com o juiz formas de tentar escapar ao cerco das autoridades e chega a consultar Moraes sobre um plano de fuga do Brasil quando as investigações chegaram excessivamente próximo a ele.
A Proximidade entre Daniel Vorcaro e Alexandre de Moraes já era gritante e escandalosa, até porque a esposa do juiz, a advogada Viviane Barci de Moraes, quando a investigação contra o banqueiro que poderia ter de ser julgada pelo STF avançou perigosamente, foi contratada por Daniel Vorcaro para o defender por 22,2 milhões de euros, um valor considerado absurdamente elevado por outros escritórios de advocacia de Brasília. Moraes, que durante meses de denúncias se tem recusado a dar qualquer explicação, tem alegado simplesmente que o contrato é com o escritório da mulher, não tem nada a ver com ele, mas o relatório da Polícia Federal afirma que foi o próprio magistrado quem revisou e editou o contrato entre Viviane e Vorcaro, além de um outro, que não era conhecido até agora, de mais 8,4 milhões de euros, pago com um avião e um helicóptero.
As mensagens que desde esta terça-feira provocaram um verdadeiro terramoto na política brasileira, em plena campanha para as presidenciais do próximo mês, já eram conhecidas parcialmente há meses e suspeitava-se que tivessem sido enviadas a Alexandre de Moraes, mas este, sempre em comunicados lacónicos, negava que o telemóvel a que foram enviadas fosse o dele. A novidade, que caiu como uma bomba tanto no mundo político quanto no jurídico, é que, a pedido de André Mendonça, relator no STF das acusações contra Daniel Vorcaro, a Polícia Federal confirmou oficialmente que o destinatário da troca de mensagens foi mesmo Alexandre de Moraes.
Segunda-feira, após receber o relatório da PF no fim de semana, André Mendonça comunicou ao presidente do STF, Edson Fachim, e ao próprio Alexandre de Moraes que iria pedir a abertura de uma investigação contra o colega com base nos dados confirmados pela autoridade policial. Testemunhas relatam que ele foi interpelado de forma muito ríspida por Alexandre de Moraes, que tem a agressividade como uma de suas características mais temidas, e Mendonça, sentindo-se em elevado risco, surpreendeu toda a gente e decidiu tornar o relatório de domínio público como forma de se proteger e evitar que o caso fosse abafado.
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