São poucos os que, nas ruas de Nuuk, não suspiram de cansaço a mais um jornalista de gravador em punho, a perguntar-lhes o que pensam.
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Na capital da Gronelândia, a palavra na boca de todos é "cansaço". Muitos resistem a entrevistas, mas há uma geração que despertou para a política e o ativismo. À Lusa, jovens gronelandeses dizem-se exaustos, mas com a sua identidade bem clara.
São poucos os que, nas ruas de Nuuk, não suspiram de cansaço a mais um jornalista de gravador em punho, a perguntar-lhes o que pensam. Muitos negam entrevistas, revelando uma exaustão depois da avalanche de repórteres das últimas semanas.
Aputsiaq Larsen, de 19 anos, aceita falar com a Lusa. "É avassalador", diz o estudante de Direito. Entre os amigos a opinião prevalente é clara: "Não queremos ser parte dos Estados Unidos, isso é certo", diz.
"Não é óbvio o que pensamos?", atira Nivi, 32 anos, que se confessa cansada de repórteres. "Estou muito cansada, é tudo muito incerto, não sabemos com o que acordamos de manhã". Não acredita na independência no seu tempo de vida, mas talvez na geração a seguir à sua. A exaustão é partilhada por Inuna, de 31 anos, que diz ainda discutir as notícias com os amigos, o que a deixa stressada.
Num café no centro da cidade, Malik, de 21 anos, conta que já se habituou aos media. O estudante tornou-se uma espécie de celebridade local, com alcance internacional. Já foi entrevistado por jornalistas de muitas partes do mundo, já esteve em direto na televisão e não tem a certeza se a entrevista à Lusa, num dia 31 de janeiro de manhã, será a última do mês.
No início do ano, quando Trump Jr. veio a Nuuk, foi com um amigo conhecer o filho do presidente americano, a um bar. Disse-lhe que a Gronelândia não estava à venda e aceitou tirar uma foto de grupo com outros habitantes locais, de boné MAGA na cabeça. "Estava só a ser simpático. E depois vi que fomos usados como parte de uma campanha para fazer a Gronelândia parecer um país MAGA. Foi um grande erro", admite.
A namorada, Parnûna, de 25 anos, mostra com orgulho as suas tradicionais tatuagens Inuit. "Estes aqui são para proteger os meus olhos", diz apontando para pequenos pontos em linha, sobre as têmporas. "E estes representam a minha família, pai, mãe, irmão, eu, as minhas irmãs e este espaço em branco para o meu irmão que nasceu há um ano", explica. As tatuagens de Parnûna tornaram-se mais comuns entre a geração mais jovem.
"Hans Egede [o pastor luterano dinamarquês que iniciou a cristianização dos Inuit] proibiu-as", conta. Estas tatuagens marcam a reconexão desta geração com a sua ancestralidade. Querem mostrar que são gronelandeses e se orgulham disso. "Não queremos ser dinamarqueses, culturalmente. Somos gronelandeses", diz claramente.
Os últimos tempos, conta, têm sido difíceis. "Não sabemos o que vai acontecer. Não dormimos bem", diz Parnûna. "Depois do que aconteceu com a Venezuela, entrei em pânico. Pensei que nos poderia acontecer a nós também", diz Malik.
"Gostaríamos de pensar que são ameaças vazias", diz Malik, "mas somos nós que vivemos aqui e sabemos como foi intenso, com todos os americanos que cá estiveram. Depois de Trump Jr. foram os influencers e os empresários dos Estados Unidos que veiram cá com a retórica Make Greenland Great Again".
Caso a situação piore, Parnûna já tem um plano de fuga e conta que não é a única. Irá para a Dinamarca com a família e o namorado. "Sei de pessoas que, em caso de invasão, já têm planos para ir para os fiordes, onde têm pequenas casas, até ser seguro viajar para outro país. Estão ativamente a planear sair daqui".
Entretanto, dizem, a sua geração tornou-se mais assertiva e vocal em relação ao que querem para o seu país, porque temem perder a sua cultura. "Se passarmos a ser parte da América, perderemos a nossa língua e a nossa cultura", diz Parnûna.
Para corrigir o erro inicial, Malik usa agora um boné MAGA, mas de outro tipo: Make America Go Away, com a bandeira da Gronelândia e ainda uma outra mensagem: "Nu det Nuuk", um jogo de palavras com a expressão dinamarquesa "nu er det nok", que significa "já chega". Parnûna prefere dizer em Gronelandês: "Maanna naammappoq!", diz, reafirmando a exaustão, "só queremos ser deixados em paz.
Donald Trump tem afirmado a intenção de controlar a Gronelândia, território autónomo da Dinamarca com cerca de 57 mil habitantes, considerando a sua localização estratégica no Ártico crucial para a defesa dos Estados Unidos. Apesar de várias negociações entre os EUA, a Dinamarca, a Gronelândia e a NATO, não houve ainda resultados concretos.
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