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MICRONOVELA

Herança de sangue Há heranças que não se escolhem.

Vaga de ataques mata 23 polícias

A cidade de São Paulo viveu horas de autêntico terror na madrugada de ontem. Pelo menos 23 polícias foram abatidos a tiro em menos de seis horas em mais de 20 acções coordenadas do Primeiro Comando da Capital (PCC), organização criminosa paulista, que reagiu à transferência dos seus líderes presos para uma prisão considerada inexpugnável. No total, e segundo números oficiais divulgados pelas autoridades, morreram pelo menos 30 pessoas. Ontem, registavam-se motins em dezenas de prisões de São Paulo.

14 de maio de 2006 às 00:00

De acordo com o Departamento de Investigações e Combate ao Crime Organizado de São Paulo (DEIC), o número de polícias mortos ainda poderá aumentar nas próximas horas, pois alguns dos mais de 32 feridos estavam ontem em estado grave em hospitais da área metropolitana e correm risco de morte.

MORTOS A SANGUE-FRIO

Fortemente armados, usando metralhadoras, pistolas e até explosivos, os criminosos perseguiram polícias pelas ruas, alvejaram-nos a sangue-frio e atacaram viaturas e esquadras, causando o pânico a milhares de pessoas, acordadas em toda a cidade por rajadas de tiros e explosões. Pelo menos 15 suspeitos foram já detidos e vários líderes de organizações criminosas estão a ser interrogados. Entre eles está Marcos William Camacho, ‘Marcola’, considerado o chefe máximo do PCC e que é precisamente um dos presos que tinham sido transferidos.

O secretário de Segurança Pública de São Paulo, Saulo de Abreu, que esteve reunido durante várias horas com os comandantes de todas as forças policiais paulistas, afirmou não ter dúvidas de que os ataques constituíram uma represália à transferência, ocorrida na sexta-feira, de 765 membros do PCC para a penitenciária da cidade de Presidente Venceslau, localizada a 620 quilómetros de São Paulo, uma das mais rigorosas do Brasil.

A transferência dos reclusos foi uma tentativa das autoridades para pôr cobro aos tumultos provocados por membros de grupos nas várias prisões por onde estavam espalhados. O secretário de Assuntos Penitenciários, Nashima Furokawa, declarou que a operação foi cuidadosamente planeada e os riscos calculados, mas a verdade e que ela desencadeou uma das noites mais sangrentas da história de São Paulo, senão a mais sangrenta. Mais: numa autêntica demonstração de força, o PCC colocou a ferro e fogo vários estabelecimentos prisionais do estado de São Paulo, com a Polícia a dar conta de motins em pelo menos 22 prisões.

PODER 'ABSOLUTO’

A organização criminosa paulista denominada Primeiro Comando da Capital (PCC) domina de forma sangrenta quase todas as prisões do estado de São Paulo. Os presos que se recusam a colaborar são mortos e, fora das prisões, outros são forçados a fazer assaltos para financiar a organização, sob pena de verem as suas famílias mortas.

MOTINS EM CADEIAS

No final da tarde de ontem a Polícia dava conta de motins em pelo menos 22 grandes prisões do estado de São Paulo. O PCC parece assim repetir a prova de força com que se anunciou em 2000, quando comandou a revolta de 30 mil presos e manteve sete mil pessoas reféns por quase 24 horas.

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