Há palavras que revelam mais do que explicam. “Imprudentes” é uma delas. Foi assim que o ministro da Educação classificou os pais que marcaram férias confiando no calendário de exames publicado pelo ministério. Para Fernando Alexandre, a imprudência não é falhar uma operação nacional que envolve 166 mil alunos. Imprudência é acreditar no Estado.
É difícil imaginar maior falta de respeito pelas famílias. Durante meses, pais e alunos organizaram a vida com base numa informação oficial. Marcaram férias, planearam deslocações, ajustaram trabalho, contas e expectativas. Quando tudo falha, em vez de pedir desculpa, o ministro aponta-lhes o dedo. Quase lhes diz: “Azar, não tivessem confiado em nós.” Isto não é arrogância política. É uma inversão moral.
A história dos exames digitais não começa num azar tecnológico. Começa numa decisão política. Portugal tinha um sistema de exames estável, testado e com confiança pública. As provas eram anonimizadas, corrigidas por professores, acompanhadas pelo Júri Nacional de Exames e os problemas eram resolvidos com proximidade. Não era perfeito, mas funcionava. Este Governo decidiu desmontar esse equilíbrio em nome de uma suposta modernização, feita depressa, sem rede e com uma confiança cega em plataformas que não estavam preparadas.
O aviso já existia. Em 2025, no ensaio da correção digital em Filosofia, os professores relataram falhas graves: provas desaparecidas, respostas cortadas, folhas em branco, trocas de ficheiros. O ministério chamou ao ensaio “muito positivo” e avançou para centenas de milhares de provas. Pior, alterou o modelo e centralizou a digitalização num único armazém, sem teste real à escala nacional. Onde se exigia prudência, houve voluntarismo. Um salto no escuro.
Depois veio o desastre. Professores chamados para disciplinas que não lecionaram, perfis trocados na plataforma, respostas que desapareciam, folhas de continuação em falta, classificações atribuídas por terceiros, até uma docente falecida convocada. Um sistema que, segundo o próprio manual, podia apresentar contadores negativos de respostas por corrigir. Não é uma falha menor. É um sistema que nem sabe contar o que tem dentro.
Perante isto, o ministro seguiu o guião habitual: primeiro negou, depois desvalorizou, a seguir culpou os mensageiros e, por fim, atirou responsabilidades para todos. Professores, diretores, pais e quem sabe até os agrafos. No Parlamento, garantiu que o calendário seria cumprido. Dois dias depois, o Governo adiou tudo.
Agora exige-se o básico. Nenhuma pauta sem verificação total da integridade das provas, correção em papel sempre que o digital não dê garantias, consulta e reapreciação gratuitas, pagamento extraordinário aos professores que forem chamados a limpar esta trapalhada em agosto, como anunciou Dom Bugalho, que não sabia que era apenas cumprir a lei.
E, sobretudo, exige-se humildade. Quem não conseguiu garantir a correção dos exames não tem autoridade para mudar tudo ao mesmo tempo. A escola pública precisa de professores, estabilidade e confiança. Não precisa de experiências feitas em cima dos alunos. A palavra certa, afinal, existe. Imprudência não foi marcar férias com base num calendário oficial. Imprudência foi destruir um sistema que funcionava. E essa responsabilidade tem nome político.
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