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Bernardo Ribeiro

Bernardo Ribeiro

Os The Cure foram demasiado grandes para tão curto festival

09 de junho de 2026 às 23:13

Os The Cure realizaram no North Festival aquilo que deles se esperava. Um grande concerto, cheio de canções que atravessam gerações, boa presença em palco e uma autoridade rara em bandas com esta história. Robert Smith e companhia fizeram a sua parte. E fizeram-na bem. Confesso que excedeu até as minhas expectativas. O problema é que, à volta desse concerto, a experiência de quem pagou bilhete esteve demasiado longe do que um grande festival deve oferecer.

A contradição torna-se ainda mais evidente quando se olha para o discurso oficial. Na apresentação do festival, a organização falou num recinto “pensado ao detalhe”, com “mais espaço, maior conforto” e “acessos simplificados”. O que muitos encontraram, porém, foi o contrário. Filas longas, circulação difícil, informação escassa e uma experiência de consumo que transformou tarefas básicas (coisas como beber água, comer qualquer coisa ou até ir à casa de banho) num teste à paciência. Mas daqueles…

O caso mais simbólico foi o dos pagamentos. Antes do festival, a informação pública dizia que os bares funcionariam em sistema cashless, através de pulseira, com pontos de carregamento no recinto. Só que ao mesmo tempo a restauração seguia a política de cada vendedor, ou seja, o cliente entrava num festival sem um modelo de pagamento simples, uniforme e imediatamente inteligível. Um caos. De legalidade duvidosa, parece-me.

O problema, note-se, não é só o cashless em si. Hoje, muitos festivais usam esse modelo. A diferença está na forma como é aplicado. No Sónar Lisboa, por exemplo, a pulseira também é o meio de pagamento, mas o sistema prevê reembolso gratuito do saldo remanescente, sem custos de transação, e disponibiliza consulta de movimentos e fatura. É assim que um sistema fechado tenta, pelo menos, respeitar o consumidor.

No North Festival, os relatos públicos vão noutro sentido. Queixas de consumidores apontam para cartões pagos, carregamentos em valores predefinidos e saldos alegadamente não reembolsáveis, além de informação pouco transparente sobre onde esse saldo podia ser usado. Houve mesmo reclamações a denunciar que o cartão só servia para bebidas, não resolvendo o resto da experiência de consumo dentro do recinto. Sim, um caos.

Isto pesa ainda mais quando o próprio festival não permitia a entrada de comida e bebida, empurrando o público para um circuito de consumo interno já congestionado. E pesa, também, porque em Portugal o numerário continua, por regra, a ter aceitação generalizada, o que torna ainda mais exigente a obrigação de comunicar com clareza absoluta quando se impõe um sistema alternativo, fechado e pago. E explicar em que lei está escrito que o dinheiro pode ser recusado.

No fim, a sensação é simples mas triste e feliz ao mesmo tempo. Os The Cure trataram o público como merecia mesmo se a organização, não. O concerto foi grande. A experiência de cliente foi medíocre. E isso, num festival, não é um pormenor. É metade do espetáculo. Felizmente os Cure fizeram tanto que era difícil sair infeliz.

Confesso que me chegou a preocupar a segurança. Não percebo bem como aquele desenho foi aprovado e que autoridades acharam que as coisas iam funcionar assim. Para não falar da sobrelotação do recinto. Enfim, há muito para melhorar mas coisas há aqui que mereciam explicações oficiais.

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