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Francisco José Viegas

Francisco José Viegas

Escritor

'Hamlet': O rei da Dinamarca, o rei que não foi

09 de agosto de 2026 às 00:30

Não há, na história da literatura, uma referência tão abismal como a de Shakespeare. Em 2012, a Companhia de Teatro de Almada representou ‘Timão de Atenas’, e havia dois motivos muito sérios para vê-la. Em primeiro lugar, tratava-se de Shakespeare, o autor mais importante de todo o nosso cânone; depois, era a derradeira encenação de Joaquim Benite, estreada logo a seguir à sua morte, em Dezembro, e continuada por Rodrigo Francisco. Benite era um encenador culto, inteligente e terno – e a sua leitura de Shakespeare (encenou ‘Otelo’, ‘O Mercador de Veneza’ ou ‘Troilo e Créssida’ por exemplo) reconduz-nos à proximidade com a poesia e a tragédia dos homens. ‘Timão de Atenas’ é uma advertência sobre a vaidade e a ingratidão, mas também sobre a renúncia ao bom senso, temas eternos de Shakespeare. Ver a peça era, pois, uma dupla homenagem: a Joaquim Benite, que se deve sempre recordar; a Shakespeare, que nunca devemos esquecer. Mas ‘Timão’, que não era uma peça central do cânone, marcou a minha reconversão ao grande mestre – porque era preciso lê-la realmente, e eu não era capaz de compreender a grandeza do teatro sem que o texto tivesse essa dimensão devastadora, como me acontecera com a bela encenação de ‘Macbeth’ de Carlos Avillez (com aquele momento em que o coro das três bruxas, insuspeito, diz “O bom é mau e o mau é bom”). Havia um sopro que eu só tinha sentido de forma tão poderosa em ‘Hamlet’ (a versão inesquecível de Ricardo Pais, que também fez um ‘Mercador de Veneza’ único), de quem se espera sempre o momento mais solene (acto III, cena I): “Ser ou não ser, eis a questão: se é mais nobre no espírito sofrer as fundas e flechas da fortuna ultrajante, ou brandir armas contra um mar de agravos, e, opondo-os, fazê-los cessar. Morrer – dormir, mais nada; e num sono dizer que cessou o torno no peito e os mil choques naturais de que a carne é herdeira: eis uma consumação que devotamente se busca. Morrer, dormir; dormir, porventura sonhar – ah, é esse o estorvo…” Sirvo-me da tradução notável de António M. Feijó (Relógio d’Água), de uma beleza incómoda e difícil. Feijó é um leitor subtil e inteligente de ‘Hamlet’; só ele poderia deixar esse exercício de humildade a propósito da tentação de comentar a peça: “Comentar ‘Hamlet’ consiste em escolher comentadores preferidos, sabendo que tais escolhas poderão revelar-se provisórias.” O meu comentário preferido é o de Jacques Barzun sobre Hamlet, “o homem que não se decidia”. Rodeado de palavras, Hamlet vive por elas, soletrando-as: traição, honra, morte, fantasmas, vingança, pesadelo. Ele sabe que o rei foi morto, não apenas porque o seu fantasma aparece, queixando-se, mas porque entende aquele abismo. Hamlet teria sido um grande rei.

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