Em tempos que já lá vão, para as bandas de Mafra, deambulava um vagabundo que todos conheciam mas a quem ninguém se atrevia a dirigir a palavra. Chamavam-lhe vadio, ladrão e outras coisas pouco elegantes.
Constava que era filho de gente sem eira nem beira e que crescera entregue a si próprio. Desde pequeno que se entregara à malandrice. Não gostava de tecto e muito menos de roubos fáceis. Nunca quisera prender-se por uma mulher. Quando muito lançava-lhes olhares e bocas de desdém, com trejeitos de canalha. A sua única paixão era a aventura, o crime, o risco. Para o ‘vadio’, o alheio era pretexto para viver no fio da navalha.
Certa noite, quando no convento os carrilhões assinalaram as onze, o vadio calcorreava as imediações do cemitério. O vento fustigava-lhe a cara, mas não se encolhia. Pelo contrário, gostava daquela sensação agreste, do som das folhas a contorcerem-se nas árvores num assobio agudo. Mirava dali as sombras que se desenhavam no fundo das janelas da igreja matriz, alumiadas pelas lamparinas tremelicantes. Pareciam o fogo fátuo do cemitério, ora aparecendo ora desaparecendo nas noites quentes do estio. Os monges ainda estavam de pé. Mas para o vadio isso não era problema. Ergueu-se, sacudindo o corpo como um cão rafeiro, e foi avançando junto às grossas paredes de granito. Assim que franqueou as portas da fachada principal, caiu num silêncio sepulcral.
O morto lá estava, meio tapado por um manto de linho bordado e a cara enfezada no forro do caixão. O vadio não se condoeu, pelo contrário. "Vês como é? No fim, não interessa quem fostes… acabamos todos sozinhos!"
Foi então que viu o objeto da sua cobiça. A cruz reluzente de ouro no pescoço do morto, a encomendá-lo ao criador. Vadio não se comovia com a fé. Com a agilidade de uma lebre, galgou os degraus de pedra e já ia de mão lançada quando o guincho de um rato no coro o parou. Não teve tempo de ver mais nada. Subitamente, a espada da Virgem do altar desprendeu-se da imagem e veio direita a ele, trespassando-lhe o peito de um lado a outro!
O vadio caiu redondo na laje fria com um urro e os olhos esbugalhados de medo. Dizem lá para os lados de Mafra, onde esta lenda tradicional ainda hoje é contada, que antes de soltar o último bafo o cabelo ficou-lhe todo branco, tal foi o susto. E escusado será dizer que não teve sequer tempo de pedir perdão...
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