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Baptista-Bastos

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Jornalista

O dilema

26 de novembro de 2014 às 00:30

Os nossos sentimentos ambivalentes em relação a José Sócrates não justificam o que o homem tem passado desde a última sexta-feira. Um pequeno biltre, cujo nome quero deixar fora deste texto, por questões de higiene mental, chegou ao ponto de urrar "Aleluia!", na hora da detenção do ex-primeiro-ministro. Mas as humilhações ‘oficiais’ por que passou superam qualquer entendimento. E há perguntas ainda sem resposta, uma das quais acaso mais pertinente do que outras.

Sócrates sabia que seria detido logo que chegasse a Lisboa? As indicações levam-nos a acreditar que sim. E não só as fornecidas pela pompa mediática, reveladora de que a informação saíra de fonte judicial para dois jornais. Estes cumpriram o dever que lhes incumbe, embora a correspondência com a ética saia um pouco amolgada.

Outra interrogação: as acusações a Sócrates serão mais pesadas e graves do que as que recaem em Ricardo Salgado, o qual vive no regalo da sua ‘villa’, enquanto Sócrates foi recambiado para Évora?

Terceira: a presunção de inocência usou do mesmo peso e da mesma medida aplicados a Salgado, ao qual a caução de três milhões, para passear ao ar livre e não ser aferrolhado, chega a ser ultrajante, tomando em conta a fortuna de que se fala?

Portugal tem sofrido, nos últimos tempos, o aparato de escândalos sucessivos, que atinge banqueiros, altas figuras da Administração Pública, ou da política e ou da sociedade civil. Mais do que a mossa social causada pela exaustão dos factos, a endemia moral que nos assaltou é, de certeza, extremamente gravosa, porque atinge fundo a nossa comum credulidade nas estruturas da nação e na particularidade da sua alma. Da sua alma, isso mesmo: o cerne daquilo que somos, de onde viemos e aonde vamos. Para conhecimento de causa, convém ler António Borges Coelho.

Por muito graves que sejam, e são-no, os escândalos e a morbidez dos costumes rapidamente cederão o lugar à nebulosa do esquecimento, porque a pressa do nosso viver assim o exige. Junte a estas malformações a nossa ausência de cidadania e formule o dilema: porque nos está a acontecer esta tragédia? A resposta talvez a encontre na inquietante afirmação de Balzac: "Todas as fortunas assentam num crime."

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