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J. Rentes de Carvalho

É tudo namoro

Dá-se o caso de o país inteiro namorar. Desapareceram nele as amantes.

J. Rentes de Carvalho 28 de Outubro de 2016 às 01:45
Anos atrás, um poeta holandês que ia radicar-se em Portugal quis saber de mim se o ambiente seria hostil à sua preferência pelo amor grego. Assegurei-lhe que era infundado o receio, pois a Revolução dos Cravos, fora ter assegurado as liberdades, como que rebentara também as barreiras ao deboche. Pediu ele então que lhe escrevesse as palavras que na nossa língua referiam o homossexual.

Maricas, panasca, larilas, bicha, os derivados de azeite, de panela, vali-me de Gil Vicente, dos dicionários de calão, e à medida que eu escrevia soletrava ele, preocupado com a pronúncia, mas dizendo-se maravilhado, pois tal abundância vocabular contrastava com a escassez da da sua língua-mãe, em que as palavras nicht e flikker quase cobriam o assunto.

Mas se um outro poeta de igual preferência me fizesse hoje a mesma pergunta, a questão de abundância seria descabida, pois as palavras vão morrendo com a anemia do politicamente correcto, gay e namorado/a são o cânone.

Dá-se o caso de que o país inteiro namora. Desapareceram nele as amantes, as teúdas e manteúdas, as amásias, as concubinas, os cornos, os gigolôs. Anda tudo asséptico, mole, escovadinho, valem os crimes passionais para irmos manten-do algum sentido da realidade.
Portugal Revolução dos Cravos Gil Vicente
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