Com o futebol-jogo nacional reduzido à Taça das Confederações, o futebol-palavras manteve-se em transe na vida portuguesa. O caso, agora, é grave. Tem mais drama e nós narrativos do que um folhetim de Camilo: há os emails, como foram obtidos, o fogo cruzado de acusações entre os três principais clubes e a reacção pífia das estruturas nacionais do futebol, sempre com medo, muito medo do que possa acontecer — não ao futebol, mas a si mesmas.
Os leitores conhecem os meandros do caso. Como obteve o FCP os emails? Através de hackers, como diz o SLB? Esperemos pela investigação judicial, daqui a 10 anos. Onde foram divulgados? No Porto Canal, pelo ‘director de comunicação’, cargo que é, em qualquer clube, de director de propaganda e contra-ataque. O mesmo director no SLB, Luís Bernardo, célebre chefe da imagem e propaganda de Sócrates, acusou o adversário de ter sido jornalista avençado; este negou. Que diz o DIAP sobre os emails, que prefiguram corrupção generalizada à volta da arbitragem? Que investigará. A par de casos anteriores, podemos esperar sentados. O SCP, entretanto, mete-se ao barulho e pede a anulação de taças do adversário lisboeta, ainda antes de investigação. O fogo cruzado passa a incluir o Sporting, que não podia ficar de fora deste campeonato da palavra.
O caso é grave, mas tenho de me proteger na ironia. Não ligo ao futebol dos clubes (só ligo à nossa querida Selecção) há mais de 30 anos, precisamente porque a corrupção já decidia jogos e títulos — e eu não queria ser enganado.
Infelizmente, há milhões de portugueses — ai! ,quantos me estarão a ler? — que ou não querem saber ou que apoiam as falcatruas desde que a favor do seu clube. Só esta questão me preocupa. O futebol tomou o lugar da religião no pior que ela teve no passado: o fanatismo, a violência verbal, a ausência de dúvida, dúvida que o próprio Jesus Cristo teve. Por ser religião laica organizada como negócio e com milhões de crentes, o futebol pode ser pasto para todas as falcatruas mas os poderes político, económico (empresas patrocinadoras), judicial e desportivo apenas fingem que se mexem para alterar o quadro geral infecto.
Sobra a imprensa: como pode ela ser aceite de corpo inteiro como o quarto poder, o cão de guarda dos poderes, se os poderes e os crentes — incluindo os seus leitores — protegem as aldrabices nos bastidores da bola? É muito difícil, apesar do esforço para as dar a conhecer. O melhor, leitor, é fingir que ‘no pasa nada’ e, vindo Agosto, vibrar com os jogos. Ou acabará um triste como eu, que deixou de ver o futebol nacional, excepto o da nossa querida Selecção.
As minhas modestas propostas
Eis as minhas modestas propostas para acabar de vez com a corrupção no futebol português.
1ª) Revolta generalizada da sociedade civil, com manifs maiores do que as do 1º de Maio de 1974, e greve geral das pessoas de bem a todos os jogos dos três maiores clubes.
2ª) Prender preventivamente todos os dirigentes dos três maiores clubes, incluindo os directores de ‘comunicação’, e os das estruturas do futebol nacional (clubes, árbitros), pelo prazo máximo previsto na lei; e garantir que não têm telemóveis nas celas.
3ª) Greve de todos os clubes médios e pequenos aos jogos com os três ‘grandes’, jogando estes apenas entre si.
4ª) Interditar os estádios dos três ‘grandes’ por um ano e entregar os respectivos relvados a manadas de gado vacum.
5ª) Legalizar a corrupção, havendo leilões públicos das prendas aos árbitros, com entrega de 20% das receitas a instituições de solidariedade.
6ª) Emigrarmos todos para a Islândia.
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