Paula Rego é uma grande artista de Portugal e do mundo. É ambas, porque não poderia ser só uma. A vida portuguesa - chamemos assim à sua experiência familiar na média burguesia lisboeta, ao sufoco da ditadura, aos constrangimentos sociais e familiares, à condição feminina, ao lado negro do "português suave" — saltou para as telas porque teve também a experiência da vida profissional, familiar e mundana numa das capitais do mundo, Londres, onde estudou, viveu e se estabeleceu. Quando finalmente libertou na arte os seus fantasmas - que amedrontam muitos, por verem neles as suas tripas, como se ao espelho - tinha o mundo à sua espera, porque Londres tem a dimensão da crítica, do público e do mercado da arte para lho oferecer.
Ao mostrar o que não se vê e não se quer ver, Paula Rego é uma sibila, alguém que revela o inominável. Tal como Agustina Bessa-Luís na ficção escrita, encontra e agarra inesperadas interpretações da vida comum e desventra-as com mestrias narrativa e estilística admiráveis. É a Agustina da pintura.
Não seria tão grande pintora não fosse a perícia técnica, que nasceu com ela em Portugal e floresceu em Londres. Esta mestria técnica é a dimensão que ficou de fora do magnífico documentário ‘Paula Rego, Histórias & Segredos’, realizado pelo seu filho, Nick Willing (DVD, Midas Filmes). O filme centra-se na narrativa biográfica, muito importante para compreender o seu percurso artístico, e funciona como uma sessão de terapia em que, ao expor-se voluntariamente, Paula Rego revela a sua pintura. É, assim, um documentário realizado do modo que era necessário, tão comum no modelo "Fulano, Vida e Obra". Poderia ser de outra maneira? Claro, de muitas. Poderia ser mais misterioso, como é do apreço de muitos documentaristas, com menos informação e esperando do espectador um maior esforço interpretativo. A entrega da pintora ao registo do filho, com testemunhos íntimos inéditos, resulta num documentário que é uma insubstituível dádiva de revelação.
Esta qualidade é incompreendida por críticos, como V. Baptista Marques (‘Expresso’, 14.04). Escreveu que o filme "não escapa" aos "constrangimentos do formato ao qual escolheu adaptar-se, a saber: o do documentário televisivo". Embora acrescente que "felizmente" o filme supera as "limitações (…) impostas pela sua própria forma", fica expresso o desprezo pelo media televisivo e pela sua forma de expressão. Ora é precisamente a linguagem televisiva do documentário que lhe permite ser grande. Isto de ser contra a TV por ser TV é retrógrado e ultrapassado. Seria como criticar a crítica dele por ser de imprensa.
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A ver vamos: Convento de Cristo - Crimes para a Judiciária investigar
Os danos causados pela equipa de produção dum filme no Convento de Cristo são mais que uma irresponsabilidade. A direcção do monumento nacional e património mundial e a Direcção-Geral da tutela permitiram que ali se usassem dezenas de bilhas de gás numa fogueira de 20 metros de altura nos claustros, algo que ultrapassa a imaginação de qualquer idiota, quanto mais dos responsáveis do lugar. Os "cineastas" e o calor destruíram pedras, partiram telhas e cortaram árvores do claustro. À reportagem de ‘Sexta às 9’ (RTP 1) só faltou alguém que chamasse àquilo o que aquilo foi: um crime. As duas "responsáveis" mandaram por escrito uma resposta em língua de trapos administrativa para sacudirem a água do capote. A reportagem também revelou a fraude na emissão de bilhetes, com funcionários ficando com até três mil euros diários roubados a visitantes, património e contribuintes, bem como o desvio de funcionários para obras privadas em casa da directora.
Já agora: Eu não mexia, tu não mexias, ele mexia-se bem
António Mexia, como antes Salgado ou Bava, foi menino querido nalguma imprensa e canais de TV. Capas de revistas, primeiras páginas, "grandes entrevistas". Estava tudo certo. Eram os empresários perfeitos. Não sabemos se houve envelopes. Mas houve muita falta de vergonha. E agora nem um mea culpa de jornalistas e comentadores sabujos.
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