Um cidadão de Los Angeles filmou a agressão policial de Rodney King, em 1991. É o primeiro vídeo viral da História. Usou uma câmara com cassete. Hoje, filmar e fotografar é quase uma segunda natureza de milhões, que dão bom uso aos telemóveis que trazem no bolso ou na bolsa: estão onde acontecem atentados terroristas, onde há inundações e acidentes, onde há cenas de violência — e onde a polícia não está.
Estes vídeos, pese a sua falta de qualidade, são testemunhos reais; podem ser usados em tribunal. Se o depoimento oral é facilmente contraditado, por norma o filme tem valor de realidade insubstituível e, na era digital, pode ser divulgado de imediato e com extraordinária potência de disseminação. Pode? Eu diria que deve ser divulgado quando regista crimes públicos.
Sem a divulgação dos vídeos de agressões bárbaras em Coimbra e Lisboa nas redes da Internet e pelos media, ainda as autoridades policiais e políticas bocejariam à secretária sobre relatórios inconclusivos.
Os cidadãos que filmaram estas cenas não o fizeram por cusquice de vidas privadas. Ouve-se nas gravações o sentido de urgência de filmar como testemunho. Eles sabem que em Portugal o Estado não age, reage. Que a polícia e o governo condescendem, são retroactivos e amiúde só quando os casos são divulgados pelos media.
O caso da discoteca à beira Tejo é exemplar: só este ano, 38 queixas de violência dos "seguranças"; dezenas de testemunhos em sites mundiais, como o Trip Advisor. Que fez o Estado? Nada. Foi necessário uma cidadã filmar e divulgar parte da agressão injustificada e violentíssima para que a polícia visse, a Câmara acordasse e o governo agisse. Se não fosse o filme da cidadã, aquela madrugada repetir-se-ia em cada madrugada por vir. Teve sorte, pois em caso anterior, um "segurança" roubou o telemóvel com vídeo testemunhal e deitou-o ao rio.
Os cidadãos que filmam estas cenas fazem-no criando "alarme social", essa figura da lei que obriga as autoridades a agir. Não vêem outra hipótese. Sem o "alarme social", não haveria reacção das polícias e do governo dum Estado gigante com pés de barro.
O dono da discoteca disse que o encerramento ocorreu depois de um "julgamento na praça pública". Foi, e, neste caso, ainda bem. Sem esse "julgamento" que um vídeo amador permitiu desconheceríamos a lassidão e permissividade do Estado com a lei da selva do regulamento das empresas de segurança e dos espaços nocturnos, ignoraríamos que a lei em vigor não foi revista em 2016, como previsto. O governo, a Câmara e a polícia não agiram, reagiram. Não temos que agradecer-lhes. Agradeçamos a quem filmou.
A ver vamos
Incêndios na TV
Proposta modesta a um concidadão
O cidadão Miguel Pinto Leite foi o primeiro e julgo que único subscritor duma petição ao parlamento com este texto extraordinário: "seria interessante a não cobertura jornalística dos incêndios florestais", porque "ao falar diariamente deste tipo de ocorrências está-se a dar ideias a algumas pessoas". O preocupado cidadão fez a petição depois de Pedrógão, mas antes de 15 de Outubro. Não sei se mudou de ideias entretanto. Temos um cidadão que deseja a censura de "ocorrências" que matam mais do que "algumas pessoas" e destroem vastas áreas do país. Deseja que não se informe sobre o avanço das chamas, lá onde vivem concidadãos seus. Em suma, eis um cidadão que acha a censura "interessante". Pois cá venho eu "dar ideias" a este amável concidadão: não veja TV, não leia jornais; havendo incêndios, veja a "Branca de Neve"; ou vá para a praia — mas, cuidado!, não vá para alguma onde as chamas possam lamber o areal como o lambem as águas do Oceano.
Já agora
Cúmulo do ‘sistema’: uma empresa a governar
Notícia do esplendor do ‘sistema’: no tempo de Sócrates, a EDP ‘preparou’ um Conselho de Ministros e a lei das rendas da energia. Sócrates e o presidente da EDP são arguidos em processos vários, 11 anos depois. Condenados, só os portugueses, vítimas do ‘sistema’. E falta revelar os jornalistas ‘preparados’ pela EDP e por Sócrates.
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