Os telecomentadores políticos são uma das categorias mais influentes na política nacional, se não individualmente, o que é raro, mas em grupo. E são muitos: mais de sessenta.
O Laboratório de Ciências da Comunicação do ISCTE-IUL tem analisado os comentadores num trabalho para o European Journalism Observatory (https://pt.ejo.ch).
Acrescentei à sua lista os comentadores da CMTV e os de chegada recente aos ecrãs e procurei outro ângulo de análise: qual a profissão ou o modo de vida dos comentadores? Privado, Estado ou ambos?
E como se situam, devido a essa situação profissional e às suas opiniões, em relação ao que chamamos ‘o sistema’, isto é, a nebulosa que pretende a utilização ou apropriação do aparelho de Estado para benefício pessoal ou de grupo? Esta última variável é subjectiva, minha, mas é um ponto de partida para a análise de conjunto do comentariado político na TV.
Também pode considerar-se subjectivo que eu considerasse a Fundação Gulbenkian como fazendo parte do Estado, mas julgo não estar errado ao ver nela uma instituição privada majestática com uma fortíssima relação com o Estado, o que se repercute no posicionamento dos seus protagonistas.
Dum total de 63 comentadores, 48% trabalha em instituições do Estado. Juntando 6% com funções no sector público e privado, chega-se a mais de metade (54%). No sector privado trabalha 46% do total.
Todavia, entre estes há oito advogados (12%), sendo que, com a excepção de um, são sócios ou associados de poderosos escritórios, todos envolvidos em negócios com o Estado.
Este predomínio de negociadores entre o Estado e grandes empresas ‘sistémicas’ é uma das aberrações do comentariado político em Portugal. Servem de exemplo Lobo Xavier, Marques Mendes, Morais Sarmento, Júdice e Vitorino.
Resumindo, dois terços (65%) dos comentadores políticos trabalham no Estado, para o Estado ou estão envolvidos em negócios com o Estado. Acresce que podem estar no privado e exercer importantes funções estatais.
Três conselheiros de Estado, dos quais dois advogados, são comentadores: mais uma aberração do comentariado.
Outra particularidade nacional: há quatro ex-ministros das Finanças a comentar (6% do total), bem como outros ex-governantes. Acresce que os ‘nadólogos’ — os especialistas em nada — como Sousa Tavares, Marques Lopes ou Daniel Oliveira, também tendem a defender o ‘sistema’, o que consideram consolidar a sua posição.
Na minha apreciação subjectiva, 51 em 58 dos comentadores (88%), aberta ou veladamente, de ‘esquerda’, ‘centro’ ou ‘direita’, são defensores do ‘sistema’. Apenas sete (12%) não são ‘sistémicos’.
A ver vamos
Redes digitais
O regresso do audiovisual mudo
A maioria das pessoas que conheço abomina o cinema mudo. Não aceita uma narrativa de imagens em movimento sem os diálogos e os sons dessa narrativa. Não sabem o que perdem: o cinema mudo, precisamente por não ter diálogos e sons, elevou aos píncaros técnico e artístico a narração por imagens.
Algo se perdeu no cinema com o fim dessa dependência total da imagem. Mas o paradoxo é que milhões em todo o mundo aderiram nos últimos anos a imagens em movimento sem som: são os pequenos vídeos que nos aparecem nas redes sociais, como o Facebook. São feitos para não terem som.
E, mesmo quando têm, são disponibilizados com legendas para os milhões que, afinal, os preferem silenciosos. Quer dizer, os novos dispositivos de comunicação recuperaram a criação e o consumo de imagens em movimento sem som de fundo e da expressão verbal. Pode ser que este novo hábito traga de volta o interesse pelo melhor cinema mudo.
E há tantas obras-primas à nossa espera!
Já agora
Independência: como é difícil em democracia!
Na Idade Média, chegar à independência era como poetou Pessoa: "‘Que farei eu com esta espada?’ Ergueste-a, e fez-se." Na democracia actual, é uma confusão. Madrid não pode invadir.
A Catalunha não tem espada. Antes, batalhas. Agora, fala-se, fala-se. O ‘155’ é como se estivesse nas tábuas de Moisés. Guerra de nervos. Sem espada. Até ver.
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