Eduardo Cintra Torres
As empresas dos canais generalistas portugueses adoptaram há anos um sistema de contratação que existiu em Hollywood no tempo dos grandes estúdios: assinar contratos de exclusividade com algumas vedetas. SIC, TVI e RTP contrataram actores e apresentadores, dando-lhes bons salários, quer estivessem ou não a trabalhar.
Os estúdios de Hollywood há décadas que abandonaram esse modelo. Os actores de cinema, de algum modo, têm agora de lutar pelo estatuto de estrelas. Os canais portugueses adoptaram aquele sistema morto para estabilizar as caras nos seus entreténs e telenovelas, impedindo que fossem para a concorrência. Foi sol de pouca dura. Agora, têm pessoas em exclusivo que passam longas temporadas sem trabalhar, por opção dos próprios canais. Não arranjam programas que considerem adequados aos seus contratados. Noutros casos, foi a audiência que os deixou de favorecer, como Bárbara Guimarães, na SIC, ou Leonor Poeiras, na TVI.
Ser uma estrela de Hollywood nos anos 50 e ser apresentador dumas coisas de entretém nas manhãs, tardes ou noites da TV portuguesa não é bem, bem a mesma coisa. O valor potencial, quer profissional, quer carismático, de um actor ou actriz duma indústria global, como o cinema norte-americano, não se compara ao de uma carinha laroca em cabeça oca a mandar os nossos velhinhos telefonar para o 760 30 30 30. A maioria destas vedetas não tem qualidade. Excepções, como Alexandra Lencastre, só confirmam a regra.
A televisão, muito repetitiva nos géneros e até nos programas, queima-os como paus de fósforo. E acaba por queimar as suas próprias vedetas em conteúdos medíocres e já vistos. Os contratos de exclusividade, que pareciam bons para os canais, acabaram por ser maus: para eles, porque pagam, por vezes principescamente, a quem não está a trabalhar; para os próprios (os que gostam de trabalhar), que se vêem prisioneiros de um contrato sem exercer a sua actividade; e, no caso da RTP, para os contribuintes, que pagam aquilo tudo.
A RTP também tem contratos pagando aos apresentadores apenas quando estão a trabalhar. Uma injustiça: como se pode ter um contrato de trabalho em que não se dá trabalho nem se deixa trabalhar noutra empresa? Segunda injustiça: no operador do Estado, há contratados destes substituídos em programas de entretenimento por outros, pagos por valores muito mais baixos. É caso para dizer que está tudo mal, o conceito e a prática dos contratos exclusivos com vedetas. Por alguma razão este sistema acabou em Hollywood.
O título do programa ‘‘Barca do Inferno’ refere-se à própria RTP?
O novo programa da RTP Informação ‘Barca do Inferno’ tenta copiar ‘Eixo do Mal’, na SICN, e 'Governo Sombra', na TVI24. Copia mal. E, desde logo, um canal público não deveria copiar esses outros. Tem como moderador um humorista, Nilton, que além de pouca graça, não mostrou jeito para moderar. E ele, o macho, modera quatro mulheres, entre as quais uma deputada, Isabel Moreira, que a isto se presta.
A primeira edição foi de fugir. De tal forma, que uma das comentadoras, Marta Gautier, fugiu mesmo. Fez bem, pois parecia ter aterrado ali directamente de Marte, ou de Vénus. A RTP está tão sem rumo que apresenta ‘Barca do Inferno’ com uma aposta de ‘serviço público’ no seu canal de informação. Já nem pensam.
Fernando de Sousa (1949-2014)
Fernando de Sousa fazia um jornalismo informado, factual, sério, especializado. Há décadas na função, o correspondente da SIC conhecia os meandros políticos-burocráticos e as personagens da União e Parlamento europeus. Tornava claros os assuntos para um país que não liga às notícias ‘lá de fora’. A especialização e a dedicação garantiram a qualidade do seu jornalismo.
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