Há cerca de dois anos, participei, com Baltazar Garzón, numa conferência sobre o ‘novo terrorismo’ em Marrocos. A plateia era especial: países árabes, europeus e... Israel. Já na altura se falava da “reconstrução” da Al Qaida, e das ameaças recorrentes ao Reino Unido, à Espanha, à Itália, à França e, quiçá, a Portugal.
Pouco tempo depois, começou a soletrar-se, nos meios restritos, a OLA (sediada, clandestinamente, em Argel), ou ‘Organização de Libertação da Andaluzia’. Estaria implantada já em Tetuan, Sebta, provavelmente ainda em Barcelona, Sevilha e Granada.
Em Casablanca, apesar de não se perder de vista o Grupo Combatente ‘Salafista’ nativo, o GICM (de Guerbouzi, Husseini e Bentizi), sabia-se que a organização de Bin Laden tinha deixado uma clara impressão digital no país, pelo menos desde 2002. Mas procurou evitar-se o pânico, não mencionando directamente essa pista, nem ofender alguns países amigos (um dia seremos mais claros sobre isto). Os tunisinos, discretos e ‘multiculturais’ na estratégia antiterrorista, tinham também problemas graves, como se veio a ver, há pouco tempo, em Solimane.
E na Argélia, já não se pode dissimular a guerra heterodoxa lançada pelo GSPC, que desde Janeiro se chama ‘Al Qaida para o Magrebe Islâmico’, sob Abdelmalek Droukdel (Abu Mussab Abdelwadud).
Esta máquina remontada, se bem que viva de fidelidades ideológicas, de frustrações e ‘anseios’ locais, das asneiras e omissões do ‘Ocidente’, possui também laços com estruturas ‘internacionalistas’. Se isto não se pode exagerar, não deve também ignorar-se. O ‘monstro’, organizado e consciente, existe mesmo.
E como tentou influenciar as eleições espanholas, no 11 de Março, também pode ensaiar isso na disputa francesa, apelando a uma qualquer ‘quinta coluna’.
REESCREVER A HISTÓRIA
Na visita marcante ao Japão, o primeiro-ministro chinês leu um poema da sua autoria (“começa hoje a Primavera”), cumprimentou operários e crianças, e jogou basebol, equipado a preceito. Mas sugeriu também ao seu homólogo, o muito hábil Shinzo Abe, que assumisse de vez a ‘história’. Imagina-se que não gostaria de ver mais visitas ao mausoléu de Yasukuni, lembrando os soldados mortos, ou livros escolares que ignoram os crimes de guerra nipónicos. Mas até quando deverá Tóquio pedir desculpa pelos pecados dos pais? E quando começa Pequim a pedir perdão, pelos pecados dos filhos? Claro que o mais importante está algures.
Morreu Kurt Vonnegut Jr., autor de ‘Matadouro 5’ e muitas pérolas, numa altura em que o talho sangrento avança, por todo o mundo. Era um alemão, feito soldado americano, feito prisioneiro dos alemães no fim da Segunda Guerra, feito militante céptico pela paz. Escreveu um conto admirável, inspirado no ‘Triunfo dos Porcos’ orwelliano, Harrison Bergeron. Aí se mostra que o igualitarismo cego, debaixo do autoritarismo integral, desagua na tirania. Sob o nome, claro, de ‘socialismo’.
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