Fernando Gomes
Presidente da Federação Portuguesa de FutebolO que pode – e o que deve – fazer o presidente da organização que tutela um desporto com a força e a presença do futebol num momento como este? Tenho vivido muitas horas com esta pergunta, nas últimas semanas. Desconfio que não existirá uma resposta escrita algures, pronta a ser partilhada. Como todos no mundo, tateamos caminhos. Ainda assim, algumas respostas exigem de nós e algumas respostas saberemos ser capazes de dar.
Este artigo é a partilha pública das minhas respostas, que partem de uma evidência: o futuro do futebol não está garantido.
Estamos a começar um dos meses mais importantes do futebol português, em que tudo faremos para continuar a estar à altura da confiança que depositaram neste setor e em que nos prepararemos para voltar a competir. É uma oportunidade que não podemos desperdiçar, até porque um pouco por todo o lado estarão a olhar para o nosso comportamento.
De uma certa forma, é começar de novo. Temos de começar bem.
AJUDAR. Num contexto de uma crise sanitária sem precedentes, a Federação Portuguesa de Futebol usou a sua capacidade de intervenção pública para ampliar mensagens dos organismos oficiais e colaborar no auxílio aos que mais precisam, no cumprimento daquela que é também uma das missões da FPF: ajudar.
O eclodir desta crise veio sublinhar, todos os dias, que nos devemos concentrar no essencial, que temos de dar primazia ao bem-estar comum, e só a seguir no nosso interesse individual.
CURTO PRAZO. Como economista de formação, acredito que os princípios que poderemos adotar, doravante, nas nossas empresas, nos nossos clubes, têm, obrigatoriamente, de mudar.
O futebol, como a própria sociedade, tem vivido num modelo económico e comunitário estruturalmente baseado na velocidade das interações. Temos pensado de menos no amanhã.
O desporto profissional parece, de facto, ser o local por excelência do curto prazo.
O mercado que fecha, o remate que sai ao lado, o golo no último minuto. A festa, a derrota. Tudo parece inadiável. Pouco parece dependente da racionalidade, da capacidade de estudar e prever.
Apesar da sua natureza fugidia, própria de um desporto jogado com uma bola, o futebol tem de ser capaz de pensar mais além da paixão.
Confrontados com esta paragem, um paradigma inteiramente novo, teremos de partir para a construção de um novo caminho.
Nesta hora de abertura parcial da sociedade, acredito que uma das principais prioridades do futebol nacional será tornar a sua atividade mais sólida.
O bem maior do acionista, digo-o sem reservas, é a sua empresa, o seu clube, a missão que persegue e não o lucro conjuntural de um ano ou outro.
Apesar de entender que temos aspetos a melhorar, devo ser claro num aspeto: o futebol não enfrenta uma crise sistémica, os seus dirigentes merecem a confiança da banca. Merecem, afirmo, ser olhados de outra forma.
RECURSOS HUMANOS. Se o tom parece professoral, de quem dita uma lição, a falha é minha. Não se trata disso, mas apenas da partilha de conhecimentos, de reflexões e de convicções que no meu caso não são de hoje.
Teremos, nós os do futebol, de introduzir critérios mais exigentes na construção dos nossos projetos desportivos. Escolher bem diretores desportivos, treinadores, jogadores. Ultrapassada esta conjuntura extraordinária, teremos de evitar as trocas constantes de recursos humanos ao primeiro sinal de que as coisas não correm conforme o planeado.
A persistência, a resiliência e o trabalho coletivo dão resultados. A FPF, recordo, desde o início de funções da atual direção, há oito anos, só trocou de Selecionador Nacional uma vez. O primeiro título internacional em todos os escalões e vertentes só surgiu depois de jogarmos cinco finais. O primeiro título europeu só foi conquistado após 102 anos de história federativa. Não é, mais uma vez, uma lição. É uma forma de olhar.
EMPREGO. São dois mil os clubes que competem em Portugal. Número semelhante de jogadores profissionais. À luz dos critérios da FIFA, temos mais de 268 mil atletas federados. O futebol representa 0,25 por cento do PIB português de acordo com estudo recente. Estes são dados e números que obrigam a reflexão séria e ponderada.
Será que o futebol português, com a dimensão que o País tem, é capaz de garantir aos jogadores cerca de dois mil empregos de qualidade? Não podemos permitir que se vendam ilusões a jovens. Temos o dever de os proteger, criar mecanismos que lhes permitam tomar as melhores decisões e tornar óbvia a diferença entre profissional e amador.
A destruição de empregos não é um dano colateral desta pandemia. É um processo que corre paralelo e que obrigou a sociedade a montar simultaneamente duas linhas de apoio: uma para o serviço nacional de saúde e seus profissionais, outra para as empresas e seus trabalhadores.
O futebol não escapou – não podia escapar… - e todos os clubes, treinadores e jogadores sentiram e vão continuar a sentir o impacto. Numa altura destas, o regulador questiona-se: será que fizemos tudo o que era necessário para impedir que algumas dezenas de atletas vivessem situações delicadas? A resposta, infelizmente, é não.
Podíamos ter feito mais, teremos de fazer mais para evitar que se repita. E vamos fazer, não permitindo o profissionalismo encapotado e os projetos que se anunciam sustentados, mas que de responsáveis pouco têm.
Neste campo, é justo salientar o papel responsável das organizações de classe. Sindicato dos Jogadores, ANTF e APAF tiveram, em regra, posições equilibradas. Procuraram defender o seu setor, sem esquecer as dificuldades globais do futebol.
COMPETIR. A competitividade é um valor essencial que teremos de assegurar, nomeadamente através da construção ou da afinação dos nossos quadros competitivos. Também aqui temos de fazer mais, construir provas desportivamente rentáveis, socialmente relevantes e economicamente viáveis.
Nestes tempos difíceis, assistimos também a incríveis exemplos de solidariedade. De resto, registo com enorme esperança os sinais que, ao longo desta crise e noutras ocasiões, os clubes deram aos portugueses através de várias ações solidárias a favor dos mais desprotegidos. O futebol do futuro terá sempre de passar por estas áreas de intervenção. O futebol vende o mais frágil dos produtos: relação.
Retive também o comportamento próximo e empenhado dos parceiros do futebol, as marcas que nos habituámos a associar ao jogo que amamos. Não deixaremos de nos lembrar dos que souberam estar ao nosso lado neste tempo difícil.
MELHOR, COM MENOS. Todas estas pistas poderão ajudar, arrisco, o próprio futebol português a olhar-se ao espelho e a definir o papel que quer ter no mundo. Até pelas qualidades que os portugueses têm dado mostra ao longo do combate ao COVID 19, poderemos ser vistos como um País que faz melhor com menos recursos.
Acredito que poderemos viver de acordo com esse extraordinário objetivo de nos assumirmos como verdadeira fábrica de futebol. Uma fábrica inovadora, imaginativa e sábia.
Para lá chegarmos teremos, todavia, de assumir que a Liga NOS e as seleções portuguesas são o local para onde queremos que o mundo do futebol olhe. Constantemente, com interesse e curiosidade.
Isso acontecerá ser formos capazes de apostar em plantéis mais curtos e na criação de equipas B e de sub-23, formadas por jovens talentos diariamente postos à prova em competições sólidas e exigentes.
Viabilizar o acesso constante dos mais jovens aos patamares máximos.
A Liga Revelação, que lançámos em conjunto com os clubes, é um exemplo. Deu palco e espaço competitivo ao jovem futebolista português: mais de 100 jogadores alcançaram a Liga NOS em 2018/19 e mais de 70 o fizeram esta época. Tornou-se, enfim, uma fonte importante de recrutamento para as nossas Seleções.
Esta cultura de base permitiu a Portugal ver a sua Seleção principal marcar presença em todas as fases finais de Europeus e Mundiais disputadas este século. Espanha, Alemanha e França, curiosamente os três últimos campeões do mundo, fizeram igual.
NÓS E A EUROPA. Esta época terminaremos em sexto no Ranking UEFA, o que nos permitirá aumentar a presença portuguesa nas competições europeias. Como disse no início, acredito que nas próximas semanas saberemos merecer a confiança das autoridades e decidir em campo os nossos representantes.
Num círculo virtuoso, se formos competitivos e continuarmos a apostar na excelência nas áreas da formação dos mais jovens, o reconhecimento internacional acontecerá, as receitas económicas aumentarão e as apostas originais terão ainda mais hipóteses de se tornarem a norma.
Se sabemos que deveríamos ser mais igualitários e solidários na distribuição de receitas, temos principalmente de conseguir diversificar as fontes de financiamento do futebol nacional.
Os orçamentos dos grandes clubes portugueses não podem estar dependentes - cerca de um quarto de todas as suas receitas! - das participações nas competições europeias. Mas se essa é a realidade atual, a competitividade internacional dos clubes portugueses tem de ser um eixo fundamental. Esse será sempre trabalho de muitos, mesmo os que não se apuram com regularidade para as provas da UEFA.
A venda dos direitos televisivos de uma liga forte e competitiva para outros países, hoje financeiramente inexpressivos, poderá ajudar-nos a chegar mais perto de Inglaterra, Itália, Alemanha, França e Espanha, países que já dividem entre si 75 por cento de todas as receitas do futebol europeu. Para termos uma ideia realista do nosso ponto de partida basta saber que quase noventa por cento das receitas dos clubes ingleses resultam da comercialização dos direitos internacionais da Premier League.
TEMPO ÚTIL. De repente, todos nos encontrámos com um pouco mais de tempo. Distantes de amigos e familiares, mas com mais tempo. O tempo tornou-se útil, uma expressão que usamos tantas vezes no futebol: tempo útil. Precisamos que aumente, para que o jogo se torne melhor. Da nossa parte as opções estão feitas: queremos, como temos preconizado nas nossas provas e seleções nacionais, um jogo com mais qualidade técnica, menos faltas, mais respeito pela arbitragem e mais respeito entre pares.
Os nossos clubes, urge concluir, têm de aceitar que as regras precisam de ser duras, apertadas e para cumprir. Só assim poderemos terminar este ciclo de violência física e verbal que nada tem a ver com o futebol. Só assim faremos as famílias regressar ao centro do nosso desporto.
O FUTURO DO FUTEBOL NÃO ESTÁ GARANTIDO. Vivemos o tempo do impensável. O presente desafia-nos e ao olharmos para o futuro já não alcançamos o que antes parecia certo.
O futuro do futebol, lamento dizê-lo, não está garantido.
O futebol, durante muitos anos, parecia o centro da vida para muitas pessoas, mas, não aligeiremos as palavras, já todos percebemos que não é. As pessoas conseguem viver sem futebol. É verdade que viverão pior, que serão mais pobres, que lhes faltará o prazer estético, a emoção, a alegria, a comunhão, a paixão. Mas viverão.
Temos de construir, hoje, um novo futebol. Com a consciência de que a invenção do futuro é a nossa melhor tradição. Para este desafio, poderão sempre contar com a Federação Portuguesa de Futebol.
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