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Se não me obedecerem caninamente, nunca mais falo convosco. Portanto, preparem-se – é para o vosso próprio bem (e vai doer tanto em vós como em mim). É já na próxima quarta-feira, dia 30, às 22h40. Acorrentem-se ao sofá e liguem a TV na RTP 2. Depois é só degustar (a engolir em seco e a ranger os dentes) a estreia de uma das melhores séries de ficção de sempre: ‘Dexter’.

Não percam as imagens do genérico inicial – uma obra-prima. Observamos uma pessoa vulgar a atar, cortar, trinchar, triturar, esmigalhar. Em ‘Dexter’, tais actos do quotidiano representam – com o anagrama da ironia – o percurso de um protagonista singular. Dexter Morgan é um perito na resolução de chacinas a partir do exame dos rastos de sangue. Uma espécie de Sherlock forense tipo ‘CSI’? Nem pensar. Por causa de um pormenor infinitesimal: este polícia é ele próprio um serial killer. Mas uma versão bastante idiossincrática: um assassino em série de assassinos em série.

A ambivalência moral de Dexter é da linhagem d’‘Os Sopranos’ – heróis que perderam os seus superpoderes e povoam uma legião de carentes, convertidos em sociopatas. O paradigma da identidade secreta dos paladinos clássicos acaba gozado de modo sardónico. Dexter (o soberbo Michael C. Hall, de ‘Sete Palmos de Terra’) é, simultaneamente, um médico monstruoso e um monstro terapêutico. E é, ainda, o cúmulo da sublimação: aos três anos, viu a sua mãe ser trucidada por um doido, e quase se afogou no sangue dela.

Adoptado por um polícia de Miami chamado Harry Morgan (nome do protagonista de ‘O Velho e o Mar’, de Hemingway), é instruído por este a reciclar o trauma de uma forma ‘construtiva’ – destruindo os papões de carne e osso e preservando os inocentes. A série já açambarcou um Himalaia de prémios. Nos EUA, ‘Dexter’ entra este ano na terceira temporada, transitando do canal por cabo Showtime para a estação aberta CBS – aliás, o mesmo aconteceu em Portugal, onde arrancou no canal FX, em Setembro de 2007, e agora habita a RTP 2. Atrocidades? De facto, não é um programa para mariquinhas pés-de-salsa (de nenhum sexo). Mas tão-pouco se reduz a incontinência sanguinária e sádica de filmes como ‘Saw’. Pelo contrário: aqui, o mais inquietante não reside nos esquartejamentos ou no olho por olho, tripa por tripa.

O realmente perturbador está na angústia visceral do protagonista e na suspeita de que, na sua solidão dissimulada e na sua ambiguidade irremissível, Dexter Morgan somos todos nós.

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