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Francisco Moita Flores

Francisco Moita Flores

Professor universitário

Os erros da fé

20 de maio de 2007 às 09:00

O caso Madeleine secou, ao longo da semana, o restante noticiário do País, remetendo para o mundo das bagatelas acontecimentos como as eleições para Lisboa ou a expectativa pelo final do Campeonato de futebol. Não é para menos. As repercussões na imprensa mundial, sob clara influência das principais televisões inglesas, sacudiu a Comunicação Social portuguesa e tem mantido este psicodrama na primeira linha da actualidade. Com algumas virtudes e com alguns erros. Chamar-lhe-ia erros de fé.

Vejamos: a nossa cultura de romance, de filme e de séries policiais criou no imaginário colectivo a convicção de que não existe crime sem castigo. Que a cada acto criminoso corresponde, por força da investigação criminal, um julgamento e uma sentença.

É um mito urbano que floresce desde a segunda metade do séc. XIX e que os jornais, numa primeira fase, se encarregaram de popularizar através dos folhetins e/ou de notícias sobre grandes julgamentos. O romance policial deu consistência ao género, o cinema aumentou o gás e as séries de televisão socializaram definitivamente a ideia de que o Bem vencerá qualquer criminoso que lhe surja pela frente.

Ora a investigação criminal não é, nunca foi e dificilmente será a ciência exacta que reclamava Sherlock Holmes, possuidora da alquimia mágica que resolve todos os mistérios criminais e apazigua as nossas angústias. Uma coisa é a ficção que nos habita, outra coisa é a vida com a sua procissão de sofrimento e morte, de enigmas e mistérios.

Na sua identificação mais simples a investigação criminal não passa de um conjunto de métodos, que foi buscar ao conhecimento científico, mas cuja aplicação não tem o determinismo que lhe pode conferir a produção de resultados definitivos.

Dito por outras palavras, nas mesmas condições e com os mesmos pressupostos não é possível determinar que o comportamento de fulano é igual ao de sicrano, produzindo ambos o mesmo acto criminoso. Ou para melhor simplificação do que se diz, o aforismo que conclui que a ocasião faz o ladrão não é verdadeiro. Pode fazer mas também pode não fazer o ladrão.

A investigação criminal lida, muitas vezes, e um deles é o caso Madeleine, com o mistério. Aplicam-se metodologias, suportadas por ciências laterais como a toxicologia ou a bioquímica entre outras, à interpretação da vida, à reconstrução de comportamentos e condutas e pela dedução, pela analogia, pela indução procuram-se estabelecer relações que permitam demonstrar que A raptou, ou matou, ou roubou B.

É um trabalho casuístico, que se altera de situação para situação, em ziguezague, com muitos avanços e recuos, com a formulação de infinitas hipóteses, com a possibilidade de desvendar o mistério mas, também, com a possibilidade de nunca o perceber. Porque cada homem é um homem, cada problema é esse problema e não há condição para o testar laboratorialmente e determinar-lhe solução igual a outro já existente. Por isso, esperar que a investigação criminal resolva absolutamente o caso Madeleine é um erro de fé. Pode consegui-lo.

Mas pode muito bem cair no arquivo de outros casos sem que daí venha desonra. Investigar um crime é entrar pela vida dentro e todos sabemos que nem sempre a vida nos dá aquilo que queremos.

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