Acena da crise económica mundial mais vista nas últimas quatro semanas acabou por também acontecer em Portugal: num dia, o País foi acordado com a bela notícia do fim da crise porque o PIB voltou a crescer, embora apenas 0,3%; sem tempo para gozar a boa notícia, na manhã seguinte enfrentou nova angústia ao saber que o número de desempregados em Portugal ultrapassou os 500 mil e se atingiu a maior taxa dos últimos 30 anos.
Os dois números, cuja contradição surge explicada pela reacção retardada do recuperar do emprego em relação ao crescimento económico, merecem outras reflexões. É preciso aprofundar o conhecimento do que foi a crise económica apresentada como a mais terrível dos últimos 80 anos, mas um exame mais atento revela que pouco mudou na vida das pessoas excepto para os muitos milhares que perderam o seu emprego. E também pensar em que quadro se retomará a actividade financeira quando o sistema bancário continua fortemente abalado – e não só porque os clientes do BPP não podem mexer nas suas contas. Na realidade, perdeu-se o sentimento de confiança em que muitas das iniciativas se fundamentavam. A economia de mercado não está, visivelmente, para acabar, mas já ninguém acredita na garantia da ‘mão invisível’ para repor o sistema nos eixos.
A economia recuperou porque, no fundamental, se voltou a consumir. Após alguns meses à espera do pior, do colapso financeiro, das falências em cadeia e das bancarrotas, os cidadãos dos países mais desenvolvidos perceberam que, afinal, nada de irremediável aconteceu. Houve uns Madoff, como de vez em quando se descobre, da Dona Branca à Afinsa, muitas fortunas virtuais perderam uns quantos zeros, mas a vida continua. Desde a Primavera, as bolsas voltaram a florir e, como mercado de expectativas, anunciaram uma recuperação que logo acelerou por todo o lado.
O desemprego é outro problema. Os Estados e a iniciativa privada encontram-se num equilíbrio difícil. Como empregador, investidor e pagador de prestações sociais, o Estado toma conta de tudo e desacredita a iniciativa privada. A questão é que vive dos impostos que os cidadãos lhe entregam e do que pede emprestado dando por aval o trabalho dos mesmos cidadãos. O caminho é estreito. Para além do que digam os políticos a pouco mais de um mês das Legislativas, as pessoas têm de pensar pela sua cabeça que caminho querem dar ao fim da crise.
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