Justiça nega medo da Europa ao marcar para maio ação de Sócrates contra o Estado

Processo conta com 21 arguidos, que têm, em geral, negado a prática dos 117 crimes económico-financeiros que lhes são imputados.

20 de abril de 2026 às 15:52
José Sócrates Foto: Filipe Amorim/Lusa
Partilhar

O órgão que gere os tribunais administrativos rejeitou esta segunda-feira que tenha sido por receio das instâncias europeias que foi marcado para maio o julgamento da ação intentada pelo antigo primeiro-ministro José Sócrates contra o Estado em 2017.

"O agendamento da audiência final, decidido em 09 de abril de 2026 pela senhora juíza titular [do processo], insere-se no exercício normal da função jurisdicional, não resultando de qualquer impulso externo, designadamente do Tribunal Europeu dos Direitos Humanos [TEDH]", sustenta, em comunicado, o Conselho Superior dos Tribunais Administrativos e Fiscais (CSTAF).

Pub

O Tribunal Administrativo de Lisboa agendou para 14 e 15 de maio o julgamento da ação intentada por José Sócrates em fevereiro de 2017 a propósito da Operação Marquês, anunciou esta segunda-feira o ex-governante, realçando que foi notificado da marcação em 14 de abril, um dia depois de ter dado uma conferência de imprensa para informar que o processo com que entrara em 2025 no TEDH "tinha passado à fase de notificação das partes".

Tal, alegou numa nota, obriga a reconhecer que "o impulso processual para a marcação do julgamento não resultou do normal funcionamento do sistema judicial, mas antes da ação externa do Tribunal Europeu", tendo o Estado atuado por "medo da jurisdição europeia".

Segundo o CSTAF, a ação administrativa obedeceu, contudo, a "uma sequência regular de atos, com intervalos que, em regra, não ultrapassaram os três meses".

Pub

O órgão de gestão defende ainda que, no quadro do que foi determinado para a recuperação de pendências, "o andamento do presente processo não constitui exceção - antes integra o cumprimento de um plano estruturado de recuperação de eficiência do sistema".

"Os constrangimentos verificados ao longo dos anos são conhecidos e não são de natureza episódica: resultam, sobretudo, da insuficiência de recursos humanos nas secretarias judiciais face ao volume processual existente", recorda o CSTAF.

Nas ações no Tribunal Administrativo de Lisboa e no TEDH, o ex-governante socialista queixa-se da violação do seu direito a um processo equitativo e em prazo razoável e a um recurso efetivo.

Pub

O inquérito criminal do processo Operação Marquês foi aberto em 2013, conheceu acusação em outubro de 2017 e, após uma longa fase de instrução sucedida de recursos da defesa e do Ministério Público, o caso começou a ser julgado em 3 de julho de 2025 pelo Tribunal Central Criminal de Lisboa.

José Sócrates, de 68 anos e chefe de Governo entre 2005 e 2011, está pronunciado (acusado após instrução) de 22 crimes, incluindo três de corrupção, por ter, alegadamente, recebido dinheiro para beneficiar o grupo Lena, o Grupo Espírito Santo (GES) e o 'resort' algarvio de Vale do Lobo.

No total, o processo conta com 21 arguidos, que têm, em geral, negado a prática dos 117 crimes económico-financeiros que globalmente lhes são imputados.

Pub

Os ilícitos terão sido praticados entre 2005 e 2014 e, em março, o tribunal esclareceu que "qualquer indicação da data de prescrição" de crimes "seria imprecisa e extemporânea", apesar de, em novembro, ter dito que no primeiro semestre deste ano poderiam prescrever os ilícitos de corrupção mais antigos, relacionados com Vale do Lobo.

Tem sugestões ou notícias para partilhar com o CM?

Envie para geral@cmjornal.pt

Partilhar