"Não podíamos ser acusados de destruir valor para os acionistas", explica João Talone
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O ex-presidente da EDP João Talone afirmou esta terça-feira no parlamento que a elétrica esteve "fortemente envolvida" no desenho dos CMEC, adiantando que tinha indicações para "garantir a neutralidade", isto é, que "não ganharia nem perderia com a passagem".
"Tinha indicações para garantir a neutralidade, que a EDP não ganharia nem perderia com a passagem [dos CAE - Custos de Aquisição de Energia para os CMEC - Custos de Manutenção do Equilíbrio Contratual]", afirmou João Talone, que foi presidente da EDP entre 2003 e 2006.
Em audição na comissão parlamentar de inquérito às rendas excessivas no setor elétrico, o gestor disse que, enquanto esteve à frente da elétrica, "a EDP esteve fortemente envolvida" no desenho dos CMEC, o que exigiu "muita capacidade técnica", referindo que estava em causa "um terço do valor patrimonial [da empresa] aos olhos do mercado", que era o que representava os CAE.
"Eu saí em 2006 mas não enjeito a paternidade de uma parte do modelo adotado para os CMEC. Pus uma enorme pressão sobre a equipa porque não podíamos ser acusados de destruir valor para os acionistas", declarou.
Quando chegou à companhia em 2003, relatou, "tinha 12 consultores seniores que ocupavam um piso inteiro [da EDP], com 'chauffeur' (motorista) e secretária, que tinham sido ex-ministros do PS e do PSD", recordando que negociou a saída destes "um a um".
O antigo líder da elétrica disse estar "profundamente convicto" de que a extensão do contrato de concessão de barragens à EDP não estava em cima da mesa em 2006, altura em que abandonou o cargo.
Quando questionado pelo deputado do Bloco de Esquerda Jorge Costa sobre o facto de os acordos de cessação dos CAE terem já implícita a extensão do domínio hídrico, João Talone disse que "isso não fez parte das negociações" em que esteve envolvido, contrapondo que o que estava previsto era que, "no final, os ativos passassem para o Estado".
"O que foi feito até eu sair foi o que tinha de ser feito. Foi um ciclo que se fechou há muito tempo", garantiu, sublinhando que "nunca foi dócil com os ministros da Economia", até porque "aquilo que eles defendem é o interesse do Estado e um gestor independente tem que defender os interesses da empresa".
O gestor chegou mesmo a assegurar que nunca aceitou que nenhum primeiro-ministro, ministro ou secretário de Estado" lhe dissesse "o que é que tinha de fazer", numa atuação de "total independência em relação a qualquer acionista, inclusivamente o Estado".
João Talone contou que, em julho de 2005, antes de ir de férias, mostrou aos cinco acionistas qualificados da EDP disponibilidade para cumprir um novo mandato na elétrica, desde que estes sinalizassem "esta vontade" de "forma consensual" até ao final do ano.
Como tal não aconteceu, em 02 de janeiro de 2006, apresentou a sua renúncia ao cargo, vindo depois a ser substituído por António Mexia, ainda hoje à frente da EDP.
Atualmente, João Talone é acionista minoritário, com 11,3%, em seis centrais fotovoltaicas de 2 megawatts (MW) cada, precisou, adiantando que há três meses extinguiu a empresa que tinha com Pedro Rezende, que foi vice-presidente da The Boston Consulting Group (BCG), e que será ouvido na quarta-feira na comissão parlamentar de inquérito às rendas do setor energético.
Sobre o peso da produção em regime especial (PRE) no "monstro elétrico", o empresário considerou que o "tema das renováveis tornou-se numa bandeira de tertúlia".
"Digo que houve custos demasiado elevados face ao que deviam ter sido para o consumidor, mas é uma herança ultra positiva que vamos deixar para os nosso filhos. E que é um caminho que devíamos continuar", acrescentou.
No final da audição, o antigo presidente da EDP admitiu que saía do parlamento com "dois [assuntos] irritantes": a contratação de Ricardo Ferreira para a elétrica - que até então era assessor do governo do ministro da Economia Carlos Tavares - e a extensão do domínio hídrico.
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