1966. Pedro e Francisco têm 10 anos. Acabam de entrar para o Liceu Padre António Vieira, em Lisboa. Frequentam a mesma turna. Pedro é espigadote, extrovertido, louco pela bola. Senta-se nas cadeiras detrás. Francisco é uma figura de porcelana, delicado, inteligente. Procura os lugares da frente.
Trinta e oito anos depois gladiam-se no palco da política. "Gosto dos dois. Só lhes peço que não dêem muitas caneladas". O desejo é do padre Armindo Garcia, prior do Estoril e vigário da área de Cascais, que durante cinco anos foi professor de Religião e Moral "do Pedro e do Xico", como gosta de tratar Santana Lopes e Francisco Louçã. "Era uma turma excepcional, caímos no goto uns dos outros. Não tinha de dar notas e isso ajudou", recorda o sacerdote. "Investi em ajudar aqueles miúdos, que estavam a despertar para a vida, a descobrir-se a si, aos outros, a realidade social, com os riscos próprios do tempo. Havia gente aberta, mas também havia gente muito fechada", acrescentou.
Naquele tempo, as aulas de Religião e Moral não eram obrigatórias, os pais podiam pedir dispensa, mas muito poucos o faziam. "Houve um ano em que cheguei a ter mais de 20 turmas, recorda o padre Armindo Garcia, facto a que não é alheia a forma como era ministrada a disciplina. "Além das aulas, havia tempo para a criatividade, para a animação, para muitos passeios e jogos de futebol", conta o prior da paróquia do Estoril. Francisco não tinha formação católica, "nem sequer baptizado era", ao contrário de Pedro, "que ia à igreja e ajudava muitas vezes à missa, em S. João de Brito", mas foi com o agora líder do Bloco de Esquerda que o padre Armindo Garcia mais conviveu. E a razão é simples: se Louçã participava em todas as iniciativas que o sacerdote organizava, já o mesmo não se passava com Santana Lopes. "Quando o homem chegou à Lua estava com o Xico a fazer oito dias de trabalho na capela-escola da Azervadinha. Era um miúdo muito participativo, não perdia um um passeio, normalmente na companhia do irmão, um ano mais velho. Eram muito educados, os melhores alunos. Um dia fui a casa deles e verifiquei que na divisão onde estudavam havia uma carteira, daquelas com tampo, igual à da escola. Isto mostra a dedicação daqueles jovens aos estudos e à sua formação. Havia, no Xico, uma ideia de equilíbrio e harmonia".
Santana Lopes era completamente diferente. "O Pedro era o futebol. Um louco pela bola. Andava a pé para poupar dinheiro para comprar o jornal desportivo. Tinha um espírito mais rebelde", recorda o padre Armindo Garcia. "Um dia pregou-me um susto valente. Tinha saído às seis da tarde e às nove da noite o pai foi perguntar por ele. Disse-lhe que não sabia, até que passado um bocado lá apareceu. Imagine onde é que tinha estado aquele tempo todo: entretido, a subir e a descer aquelas escadas rolantes enormes da estação de metro do Parque, as únicas que existiam em Lisboa". Duas formas de viver a infância e adolescência diferentes, mas nenhuma indiciadora do que o futuro reservou a cada um deles. "À distância, podemos sempre reunir um ou outro facto para explicar ou justificar as opções que tomaram. No Pedro, por exemplo, havia uma ideia, um pensamento, que transmitia muitas vezes nos encontros e conversas que tínhamos. Dizia ele que era preciso 'deixar o mundo melhor que o encontrámos' e parecia determinado a cumprir esse ideal. Relativamente ao Xico, recordo-me que esteve envolvido num protesto contra a substituição de um professor de História – João Bonifácio Serra, actual chefe da Casa Civil da Presidência da República – e cheguei a defendê-lo nesse processo, como testemunha abonatória, embora já não fosse professor dele. Mas, em consciência, naquele tempo não se percebia que iam ter este percurso".
Pedro e Francisco terminaram o liceu e cada um seguiu o seu caminho. Um escolheu a direita, o outro abraçou a esquerda, mas mantiveram e aprofundaram a amizade que os uniu ao padre Armindo Garcia. Curiosamente, os papéis inverteram-se: Pedro, o puto traquina do ‘Padre’ (como era conhecido o liceu), mantém com vigário de Cascais uma relação de amigo, mas de uma forma "mais cerimoniosa". O Xico é mais "atrevido" e não dispensa a 'provocação' quando encontra o antigo professor: "Então, já és arcebispo?".
O padre Armindo Garcia não se mete em políticas e recusa-se a confessar em quem votará no próximo domingo. Ou se votará nalgum deles. Deseja "boa sorte aos dois" e de não "darem muitas caneladas um ao outro".
A PROPOSTA 'INDECENTE'
Para espevitar o calmo e tranquilo Francisco Louçã, cujo comportamento exemplar como aluno é por todos sublinhado, Santana Lopes terá prometido ao líder do Bloco de Esquerda 20 escudos se este conseguisse dizer, a plenos pulmões, um palavrão, uma asneira, tipo "mer...", na sala de aula, ao que Louçã terá recusado.
O dirigente do BE garante que não se recorda do episódio, mas não perde a oportunidade para espetar uma alfinetada no seu antigo colega de turma e actual adversário político: "Não me parece muito hábil, por parte de um primeiro-ministro, invocar um caso que representaria uma tentativazinha de corrupção entre jovens". Quanto à relação entre ambos no tempo de escola, Louçã garante que era "normal".
IDADE
Nasceram no mesmo ano, mas Santana é mais velho. O líder do PSD nasceu a 29 de Junho de 1956, o líder do BE a 12 de Novembro. São ambos de Lisboa.
GRAVATA
Santana e Louçã andavam de gravata no liceu. Não por opção, mas por imposição. Naquele tempo era obrigatório logo a partir do 1.º ano. O reitor do liceu achou que era um exagero e decidiu alterar a regra, passando 'apenas' a ser obrigatória a partir do 3.º ano.
FOME
Num dos muitos passeios organizados pelo padre Armindo Garcia, Louçã e os seus companheiros de escola passaram fome. É que os mantimentos acabaram-se. Para entreter o estômago, leram a Doutrina Social da Igreja, até o sono chegar.
GAMBUZINOS
Num acampamento em Foz Côa, o padre Armindo Garcia pediu a Louçã e ao grupo que o acompanhava para irem apanhar gambuzinos. Um dos 'caçadores' queixou-se que não tinha isco, ao que outro terá respondido: "Usa fiambre".
HONRA
O bom desempenho escolar fez de Louçã uma presença assídua no quadro de honra da escola, tendo terminado o liceu com média de 17.
CARMONA
O actual presidente da Câmara de Lisboa, Carmona Rodrigues, também foi colega de escola de Santana e Louçã.
UM LICEU QUE ERA SÓ PARA RAPAZES
Situado na zona de Alvalade, o Liceu Padre António Vieira, hoje escola secundária com o mesmo nome, foi inaugurado em 1965, acolhendo uma população escolar com parto de 700 alunos. Até ao 25 de Abril de 1974 era frequentado apenas por rapazes.
Pouco tempo depois da Revolução, o liceu passou a ser misto: cerca de metade dos alunos do ‘Padre’ passou para o Liceu Rainha D. Leonor (que era um liceu feminino) e, em troca, recebeu um contigente de raparigas.
Actualmente, cerca de metade dos seus alunos do Padre António Vieira são oriundos de zonas sub-urbanas. Os resultados escolares estão longe de dignificarem o nome de um estabelecimento de ensino com a história do Padre (como era conhecido), uma referência no panorama do ensino em Portugal. Segundo os últimos dados disponíveis, cerca de 80 por cento dos alunos que concluem o 12.º ano não conseguem entrar no ensino superior e, destes, menos de metade entra em 1.º opção.
Tem sugestões ou notícias para partilhar com o CM?
Envie para geral@cmjornal.pt
o que achou desta notícia?
concordam consigo
A redação do CM irá fazer uma avaliação e remover o comentário caso não respeite as Regras desta Comunidade.
O seu comentário contem palavras ou expressões que não cumprem as regras definidas para este espaço. Por favor reescreva o seu comentário.
O CM relembra a proibição de comentários de cariz obsceno, ofensivo, difamatório gerador de responsabilidade civil ou de comentários com conteúdo comercial.
O Correio da Manhã incentiva todos os Leitores a interagirem através de comentários às notícias publicadas no seu site, de uma maneira respeitadora com o cumprimento dos princípios legais e constitucionais. Assim são totalmente ilegítimos comentários de cariz ofensivo e indevidos/inadequados. Promovemos o pluralismo, a ética, a independência, a liberdade, a democracia, a coragem, a inquietude e a proximidade.
Ao comentar, o Leitor está a declarar que é o único e exclusivo titular dos direitos associados a esse conteúdo, e como tal é o único e exclusivo responsável por esses mesmos conteúdos, e que autoriza expressamente o Correio da Manhã a difundir o referido conteúdo, para todos e em quaisquer suportes ou formatos actualmente existentes ou que venham a existir.
O propósito da Política de Comentários do Correio da Manhã é apoiar o leitor, oferecendo uma plataforma de debate, seguindo as seguintes regras:
Recomendações:
- Os comentários não são uma carta. Não devem ser utilizadas cortesias nem agradecimentos;
Sanções:
- Se algum leitor não respeitar as regras referidas anteriormente (pontos 1 a 11), está automaticamente sujeito às seguintes sanções:
- O Correio da Manhã tem o direito de bloquear ou remover a conta de qualquer utilizador, ou qualquer comentário, a seu exclusivo critério, sempre que este viole, de algum modo, as regras previstas na presente Política de Comentários do Correio da Manhã, a Lei, a Constituição da República Portuguesa, ou que destabilize a comunidade;
- A existência de uma assinatura não justifica nem serve de fundamento para a quebra de alguma regra prevista na presente Política de Comentários do Correio da Manhã, da Lei ou da Constituição da República Portuguesa, seguindo a sanção referida no ponto anterior;
- O Correio da Manhã reserva-se na disponibilidade de monitorizar ou pré-visualizar os comentários antes de serem publicados.
Se surgir alguma dúvida não hesite a contactar-nos internetgeral@medialivre.pt ou para 210 494 000
O Correio da Manhã oferece nos seus artigos um espaço de comentário, que considera essencial para reflexão, debate e livre veiculação de opiniões e ideias e apela aos Leitores que sigam as regras básicas de uma convivência sã e de respeito pelos outros, promovendo um ambiente de respeito e fair-play.
Só após a atenta leitura das regras abaixo e posterior aceitação expressa será possível efectuar comentários às notícias publicados no Correio da Manhã.
A possibilidade de efetuar comentários neste espaço está limitada a Leitores registados e Leitores assinantes do Correio da Manhã Premium (“Leitor”).
Ao comentar, o Leitor está a declarar que é o único e exclusivo titular dos direitos associados a esse conteúdo, e como tal é o único e exclusivo responsável por esses mesmos conteúdos, e que autoriza o Correio da Manhã a difundir o referido conteúdo, para todos e em quaisquer suportes disponíveis.
O Leitor permanecerá o proprietário dos conteúdos que submeta ao Correio da Manhã e ao enviar tais conteúdos concede ao Correio da Manhã uma licença, gratuita, irrevogável, transmissível, exclusiva e perpétua para a utilização dos referidos conteúdos, em qualquer suporte ou formato atualmente existente no mercado ou que venha a surgir.
O Leitor obriga-se a garantir que os conteúdos que submete nos espaços de comentários do Correio da Manhã não são obscenos, ofensivos ou geradores de responsabilidade civil ou criminal e não violam o direito de propriedade intelectual de terceiros. O Leitor compromete-se, nomeadamente, a não utilizar os espaços de comentários do Correio da Manhã para: (i) fins comerciais, nomeadamente, difundindo mensagens publicitárias nos comentários ou em outros espaços, fora daqueles especificamente destinados à publicidade contratada nos termos adequados; (ii) difundir conteúdos de ódio, racismo, xenofobia ou discriminação ou que, de um modo geral, incentivem a violência ou a prática de atos ilícitos; (iii) difundir conteúdos que, de forma direta ou indireta, explícita ou implícita, tenham como objetivo, finalidade, resultado, consequência ou intenção, humilhar, denegrir ou atingir o bom-nome e reputação de terceiros.
O Leitor reconhece expressamente que é exclusivamente responsável pelo pagamento de quaisquer coimas, custas, encargos, multas, penalizações, indemnizações ou outros montantes que advenham da publicação dos seus comentários nos espaços de comentários do Correio da Manhã.
O Leitor reconhece que o Correio da Manhã não está obrigado a monitorizar, editar ou pré-visualizar os conteúdos ou comentários que são partilhados pelos Leitores nos seus espaços de comentário. No entanto, a redação do Correio da Manhã, reserva-se o direito de fazer uma pré-avaliação e não publicar comentários que não respeitem as presentes Regras.
Todos os comentários ou conteúdos que venham a ser partilhados pelo Leitor nos espaços de comentários do Correio da Manhã constituem a opinião exclusiva e única do seu autor, que só a este vincula e não refletem a opinião ou posição do Correio da Manhã ou de terceiros. O facto de um conteúdo ter sido difundido por um Leitor nos espaços de comentários do Correio da Manhã não pressupõe, de forma direta ou indireta, explícita ou implícita, que o Correio da Manhã teve qualquer conhecimento prévio do mesmo e muito menos que concorde, valide ou suporte o seu conteúdo.
ComportamentoO Correio da Manhã pode, em caso de violação das presentes Regras, suspender por tempo determinado, indeterminado ou mesmo proibir permanentemente a possibilidade de comentar, independentemente de ser assinante do Correio da Manhã Premium ou da sua classificação.
O Correio da Manhã reserva-se ao direito de apagar de imediato e sem qualquer aviso ou notificação prévia os comentários dos Leitores que não cumpram estas regras.
O Correio da Manhã ocultará de forma automática todos os comentários uma semana após a publicação dos mesmos.
Para usar esta funcionalidade deverá efetuar login.
Caso não esteja registado no site do Correio da Manhã, efetue o seu registo gratuito.
Escrever um comentário no CM é um convite ao respeito mútuo e à civilidade. Nunca censuramos posições políticas, mas somos inflexiveis com quaisquer agressões. Conheça as
Inicie sessão ou registe-se para comentar.