Isaltino Morais negou ontem ter utilizado as contas do sobrinho Leandro Alves, imigrante na Suíça, para ocultar dinheiro. O arguido garantiu, aliás, que foi o sobrinho quem depositou cerca de 220 mil euros na conta que mantém naquele país, para aproveitar os elevados juros. Questionado sobre a capacidade financeira daquele familiar, taxista de profissão, o autarca respondeu indignado: "Os imigrantes que vão para a Suíça enriquecem todos menos o meu sobrinho? A mulher dele ganha cinco mil euros como cabeleireira."<br/><br/>
Chegado ao fim o depoimento do presidente da Câmara de Oeiras, que responde em tribunal por sete crimes, restaram muitas dúvidas quanto à forma como Isaltino Morais conseguiu depositar na Suíça cerca de 1,3 milhões de euros, entre 1993 e 2002 , quando nesse mesmo período auferiu, enquanto autarca e ministro do Ambiente, 351 mil euros. 'Então e os salários da minha mulher, as vendas de património?', insistiu Isaltino Morais, que em sessões anteriores assumiu o depósito de 'sobras de campanhas eleitorais' anteriores a 2005 na conta suíça.
Ontem, no Tribunal de Sintra, ficou-se a saber que a mesma conta foi igualmente recheada com ofertas monetárias de 50 euros de cantoneiros do município, que Isaltino Morais considerou normais. 'Dá-me dinheiro quem quer, quem acredita em mim', defendeu o autarca perante o colectivo de juízes.
Em relação à referida conta, apenas foi possível certificar o que de certa forma já era conhecido: nunca foi declarada, nem ao Fisco nem ao Tribunal Constitucional (TC), ao qual, enquanto detentor de um cargo político, Isaltino Morais está obrigado a declarar os rendimentos.
'Não tive consciência de que havia um problema fiscal, nunca me passou pela cabeça', sustentou o arguido, confidenciando que, na década de 1980, período em que se tornou presidente de Câmara, a declaração de rendimentos apresentada ao TC 'nunca era levada a sério' pelos políticos. 'Nunca era levada a sério por ninguém, não valia nada', afirmou.
TESTEMUNHAS SOFREM AMEAÇAS PARA MENTIR
Na quarta sessão de julgamento, que ontem decorreu no tribunal de Sintra, Isaltino Morais afirmou que os titulares das contas nas quais, segundo a Acusação, o autarca terá depositado dinheiro de origem ilícita, foram alvo de ameaças. 'Todas estas pessoas foram ameaçadas de prisão para que mentissem', disse o arguido. Uma das pessoas em causa deverá ser a ex-secretária e ex-chefe de gabinete do presidente da Câmara de Oeiras, Paula Nunes, a principal testemunha deste processo, cujo depoimento está agendado para sexta-feira.
APONTAMENTOS
AUDI RENDE O DOBRO
Um dos negócios em causa neste processo diz respeito a um Audi A8 que Isaltino Morais comprou por 35 mil euros e que vendeu um mês depois por 60 mil euros. 'Finalmente, um bom negócio!', afirmou.
RESERVA DE NOVE ANOS
Um empresário da construção civil reservou um lote na Quinta dos Arcos durante nove anos para Isaltino Morais sem contrato e/ou cheque de garantia. O autarca nega favorecimento em troca.
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