Governante considera que Unidade Local de Saúde de Santo António (ULSSA), no Porto, reúne condições.
A secretária de Estado da Saúde, Ana Povo, considerou, esta quarta-feira, que a Unidade Local de Saúde de Santo António (ULSSA), no Porto, reúne condições para ser centro de referência afiliado para a colocação de válvulas aórticas percutâneas (tavis).
"Muito do que está aqui em causa é permitir que aquela unidade comece a fazer tavis como centro afiliado. Acontece que a colocação de tavis, tal como norma da Direção-Geral de Saúde, implica que exista uma equipa cirúrgica 'on-house', que com uma unidade de cirurgia cardíaca afiliada de um ou de qualquer centro, tornaria possível. Já tem um cirurgião cardíaco, bastava vir outro e mais a restante equipa", disse Ana Povo.
A governante foi, esta quarta-feira, ouvida na Assembleia da República, a pedido do partido Chega, a propósito da possibilidade de criação de um novo centro de cirurgia cardíaca na região Norte, numa audição cuja visualização 'online' ficou sem som após cerca de 45 minutos de transmissão.
Ana Povo foi questionada sobre uma polémica que remonta a fevereiro, altura em que o Diário de Notícias (DN) noticiou que diretores de serviço de cardiologia de quatro hospitais do Norte (Santo António, no Porto, Tâmega e Sousa, Matosinhos e Trás-os-Montes e Alto Douro) subscreveram uma carta sobre o panorama na cirurgia cardíaca na região, missiva dirigida à ministra da Saúde, na qual alertavam para a lista de espera de doentes com problemas cardíacos a necessitar de cirurgia ou de implantação da válvula da aórtica, as chamadas tavis.
Em entrevista à RTP, o diretor de serviço de Cardiologia da ULS Santo António, André Luz, disse a 19 de fevereiro que 10 doentes morreram nos últimos três anos devido a uma "lista de espera demasiado elevada" só neste hospital do Porto.
Nessa ocasião, à ULS Santo António foi atribuída a ambição de vir a criar um centro de referência nesta área e revelado um despacho conjunto assinado por Ana Povo, o qual falava da viabilidade da criação de um centro na ULSSA, unidade de saúde onde a governante exerceu funções.
"Leia o despacho e verá que não é um despacho decisório. A partir daí não há conflito de interesses nenhuns", disse, esta quarta-feira, Ana Povo em resposta à deputada do Chega Cláudia Estêvão.
Atualmente, doentes que necessitem de intervenções nesta área são referenciados para os centros de referência da ULS São João, no Porto, ULS de Vila Nova de Gaia/Espinho, bem como da ULS Braga, onde abriu há dois meses uma estrutura que está a trabalhar a 20% da sua capacidade, prevendo-se que atinja o pleno até ao final do ano.
Também por essa ocasião a Ordem dos Médicos e diretores de serviços, nomeadamente de Gaia e do São João, alertaram para um possível esvaziamento de recursos humanos caso viesse a ser criado um novo centro de referência a Norte.
Esta quarta-feira, Ana Povo referiu que Portugal "está na cauda da Europa" na colocação de tavis e insistiu que "ninguém pode dormir descansado com esta situação".
A secretária de Estado lamentou que na ULSSA haja um cirurgião cardíaco contratado desde 2016 "impedido de operar".
"Porquê que ele foi contratado? Porque o seu contrato foi autorizado pela tutela em 2015 para a abertura do serviço de cirurgia cardíaca nessa mesma unidade. Esse cirurgião, existe num hospital público, pago com dinheiro dos contribuintes, está não só impedido de operar, porque é o único, mas também impedido de dar apoio à colocação das tavis", referiu.
Defendendo que esta situação "resulta de uma referenciação que ignora a realidade dos recursos existentes no país", Ana Povo regressou depois ao tema da questão do conflito de interesses.
"Pela sua linha de escrutínio, qualquer profissional do Serviço Nacional de Saúde estaria impedido de realizar cargos governativos, pois de forma mais direta ou indireta pode ter impacto no hospital onde trabalhou", disse, dando exemplos como o antigo ministro Fernando Leal da Costa, diretor de serviço no IPO de Lisboa, ou de Manuel Pizarro que também foi ministro da Saúde e exerce Medicina no Hospital São João no Porto.
"Só o total desconhecimento do conteúdo do despacho poderá justificar a tentativa de me incutir um conflito que não existe", sublinhou.
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